O paradoxo da substituição da proteína animal pela proteína vegetal
Alternativas aos lácteos - Nos últimos anos há uma frenética mobilização ideológica misturada com modismos, associada às religiões e filosofia de vida que defendem a libertação dos animais, culpam a produção da proteína animal como a causadora de todas as desgraças relacionadas à questão da emissão de carbono; às questões climáticas; intoxicações alimentares; doenças infecciosas; hipersensibilidade alérgicas; e a uma lista extensa de outras tantas doenças. (leia aqui o artigo publicado recentemente pelo Jornal Correio Braziliense).

Recentemente o Comitê Brasileiro da Federação Internacional do Leite — CB FIL/IDF trabalhou o tema que foi discutido no âmbito das Nações Unidas a respeito de doenças não contagiosas (leia aqui o documento levado às Nações Unidas). O maior absurdo de tudo é que a alimentação animal é baseada em produtos vegetais e uma pequena parte em minerais. Sendo que todo o produtor de proteína animal e as autoridades de saúde animal têm uma série de preocupações com o controle da qualidade da alimentação vegetal que é destinada aos animais. Há também, por parte do Estado brasileiro, de longa data, controles fiscais sistemáticos a respeito da qualidade dos produtos vegetais, sobretudo em relação ao risco real de contaminação de resíduos químicos e pesticidas carreados pelos defensivos agrícolas. Há legislações implantadas sobre os controles dos contaminantes e, seus limites, são monitorados em todo o território pelas autoridades competentes do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e/ou da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).
Mas para entender toda essa questão que se coloca com tanta força midiática é importante entender os grandes interesses econômicos que movem o Mercado Global de Proteínas vegetais.
O mercado global de proteínas vegetais
A amplitude deste mercado está projetada em torno de um estudo que diz que há 12,4 milhões de pessoas sofrem de hipersensibilidade alimentar – segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças nos EUA. Claro que se pretende atender a esse mercado com os novos produtos à base de proteína vegetal, os quais, em tese, seriam isentos de carregar problemas à saúde dos humanos.
Os tipos de insumos mais demandados pelas indústrias processadoras de produtos à base de proteínas vegetais são as proteínas isoladas, concentradas e farinha de proteínas.
As principais aplicações das proteínas vegetais são em: Bebidas de proteínas; Alternativas aos Lácteos; Barras de alimentos; Opção às carnes; Frutos do mar; Panificação; e outros em estudo. Para a produção de proteínas vegetais, as principais fontes utilizadas são: soja, ervilha, trigo, aveia, amêndoa, arroz e outras em estudos como cânhamo e chia.
Nos Estados Unidos (EUA), União Européia UE), países da Ásia mais próximos ao Pacífico, América Latina, Oriente Médio e África, são os países onde mais se desenvolvem tecnologias, processamento e indução ao consumo de produtos a base de proteínas vegetais.
O Mercado Global de Proteínas Vegetais teve faturamento aproximado de US$ 19 bilhões, em 2021, e a previsão é chegar a US$ 41 bilhões até 2027. Estima-se que US$ 38 bilhões, aproximadamente 93%, virão dos EUA, onde, atualmente, já é o principal mercado.
Pesquisas e desenvolvimento do setor de Produtos Vegetais
Atualmente o principal foco das pesquisas é o desenvolvimento de proteína vegetal com umidade reduzida. Também há um enorme interesse dos segmentos produtores de chocolate em substituir proteína animal por vegetal visando aumento da margem de lucro. Cresce o mercado de alimentos prontos para consumo, sem alteração de sabor. O consumidor evita, por exemplo, produtos contaminados; ou se são alérgicos à proteína animal e ou intolerantes à lactose. Eles têm a necessidade de buscar novos produtos e até novas fonte de proteína, sendo o caso.
Porém, cerca de 89% dos consumidores de alimentos alegam algum tipo de intolerância ou alergia a Ovos, Leite, Peixe, Carnes — sobretudo as vermelhas, principalmente na UE —, Soja e Nozes.
O crescimento da oferta de produtos à base de proteína vegetal, conforme aqui caracterizado, baseia-se no interesse do consumidor, que é incentivado a alterar os níveis do consumo de proteína vegetal em relação ao consumo de proteínas animais. Também existe a percepção de que as proteínas vegetais proporcionam maior bem-estar, são mais saudáveis, além de serem mais amigáveis com o meio ambiente.
Interesses econômicos subjacentes
Para contextualização sobre o interesse econômico, veja as empresas que se destacam a nível global na produção de enzimas e proteínas vegetais com alta tecnologia.
- ADM (EUA) - recentemente investiu no Mato Grosso do Sul US$ 250 milhões em soja;
- Cargill INC.
- Archer Daniels;
- Midland;
- Dupont (Danisco);
- Kerry Group;
- Glandia PLC;
- Tate & Lyle PLC;
- Ingredion IN;
- Burcon NutroScience Corp.;
- Axion Foods;
- Royal DSM NV;
- SotexproI SA;
Onde as empresas ADM (EUA); Midland; Glandia PLC; Cargill INC; Kerry Group; Dupont (Danisco) são as que trabalham de forma mais intensiva as expansões, fusões, aquisições, concentração de produtos, inovação e desenvolvimento de novas proteínas extraídas de produtos vegetais.
Diversas empresas desenvolveram várias análises desde 2018, para descobrir como ganhar o consumidor que sofre de hipersensibilidades alimentares.
Mas, pesquisas realizadas de 2007 a 2014 pela professora de Geografia Agrária da USP, Larissa Mies Bombardi, “reuniu os dados sobre os venenos agrícolas em uma sequência cartográfica, que dá a dimensão complexa a um problema pouco debatido no país”, diz matéria publicada pela Carta Campinas em 08 de julho de 2016. Esses estudos mostram que as hipersensibilidades alimentares muitas vezes são resultados de contaminações dos alimentos vegetais, de modo geral, mas sobretudo no âmbito dos grãos, dada a ocorrência do uso sem critérios de defensivos agrícolas, e práticas inadequadas, obsoletas, ou mesmo inovações tecnológicas, que não cumpriram os protocolos apropriados voltados à segurança do consumidor final, seja ele humano ou animal, segundo o conceito de Saúde Única.
No levantamento feito pela pesquisadora da USP foram registrados 25 mil casos de pessoas contaminadas, mesmo com problemas de subnotificação. “Além disso, Larissa leva em conta os registros do Ministério da Saúde para enfermidades agudas, ou seja, aquelas direta e imediatamente conectadas aos agrotóxicos. As doenças crônicas, aquelas provocadas por anos e anos de exposição aos venenos, entre as quais o câncer, ficam fora dos cálculos. O Brasil é o campeão mundial no uso de agrotóxicos, posto roubado dos EUA na primeira década do século XXI. A cada brasileiro cabe uma média de 5,2 litros de venenos por ano, o equivalente a duas garrafas e meia de refrigerante, ou a 14 latas de cerveja”, diz a matéria da Carta Campinas.
Sem esquecer a reportagem da Folha de São Paulo de 23 de março de 2011: “O leite materno de mulheres de Lucas do Rio Verde, cidade de 45 mil habitantes na região central de Mato Grosso (MT), está contaminado por agrotóxicos, revela uma pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Foram coletadas amostras de leite de 62 mulheres, 3 delas da zona rural, entre fevereiro e junho de 2010. O município é um dos principais produtores de grãos do MT. A presença de agrotóxicos foi detectada em todas as amostras. Em algumas delas havia até seis tipos diferentes do produto”.
Práticas inadequadas resultam em grande e crescente impacto na saúde da população, que estão na base dos sintomas de intoxicações; irritações, hipersensibilidades e doenças infecciosas. Claro que em um mundo fortemente deficiente em oferta de alimentos — para as grandes massas de consumidores —, o conceito de segurança alimentar muitas vezes recebe maior atenção, necessária, mas fica em segundo plano a qualidade do alimento.
Daí que, em termos de nicho, se de um lado a proteína vegetal procura resolver algumas questões oferecendo alimentos saudáveis, por outro lado, o setor de proteínas animal possui um mercado historicamente grande, resultado de intenso trabalho e investimentos em gestão e intensificação de uso das tecnologias modernas na alimentação bovina. A vaca constituiu um filtro para o excesso de agrotóxicos dos grãos, e o controle de qualidade do leite não permite que os níveis de contaminantes ultrapassem determinados níveis. Todos os contaminantes, incluindo os fármacos utilizados na saúde animal.
Atualmente, mediante gestão da agricultura regenerativa, boas práticas produtivas, melhoria genética dos rebanhos e elevação da produtividade, pode-se produzir proteínas animais - leite e lácteos seguros - minimizando os contaminantes externos aos seus sistemas de produção.
Também, com manejos adequados, hoje já é possível a emissão negativa de metano, reduzindo ou até neutralizando as ameaças ao clima que possam vir da produção de proteína animal, tornando viável oferecer um alimento saudável, seguro, e amigável do ponto de vista ambiental.
Segundo especialistas que trabalham na área de resíduos e contaminantes, é muito importante os esforços paralelos na proteção do consumidor e na análise de impacto regulatório relacionado ao controle e fiscalização de contaminantes e resíduos químicos, provenientes sobretudo de mal uso de antibióticos, de pesticidas e defensivos agrícolas.
Pontos de Atenção para o Setor de Proteínas Animal, sobretudo Setor Lácteo
Hoje, o mais importante, ainda como defesa do setor de proteína animal, seria desenvolver — com urgência — as forças alternativas de gestão de alimentos e uso de produtos veterinários menos associados à contaminação de seus rebanhos.
É uma preocupação enorme o crescente uso de tecnologias de defensivos agrícolas e outras práticas que podem contaminar os alimentos vegetais, a água, o solo e o ar. Assim, a produção de grãos precisa ser muito bem controlada. Ela pode estar produzindo proteínas vegetais com elevado grau de contaminantes que são fontes diretas de possíveis doenças e de hipersensibilidades alimentares que pretendem eliminar ao substituírem a proteína animal, criando um paradoxo. Os consumidores não estarão tendo uma alimentação mais saudável ao substituir a proteína animal pela vegetal, se esses vegetais forem cultivados de forma inapropriada. Além do mais, existem alergias também a produtos vegetais, como amêndoas, nozes e côco, dentre outras. Portanto, mudar a fonte da proteína pode não ser, necessariamente, a melhor opção.
A solução a curto, médio e longo prazo é manter a sustentabilidade da produção da proteína animal. O setor precisa rapidamente tomar a dianteira nas diversas frentes, observar os problemas de possíveis contaminações nas origens e intensificar as informações ao consumidor. É importante, para o setor, priorizar as iniciativas efetivas e inovadoras para produzir produtos que são exatamente o que o consumidor deseja: poucos ingredientes, livres ao máximo de resíduos e contaminantes, ambientalmente sustentáveis.
Como já vem ocorrendo em grande parte do planeta, as práticas agropecuárias de gestão ambiental na produção de leite em pastagens proporcionam produção negativa de carbono. É uma atividade cada vez mais socialmente responsável, que gera saúde, inclusão social, renda e mantém o homem no campo. Além disso possibilita a intensificação de cursos técnicos, tecnológicos e de pós-graduação nas Universidades e Escolas Técnicas, tomando como notável exemplo o Instituto de Laticínios Cândido Tostes-Epamig/MG, dentre outros que aumentam a oferta de especialização, principalmente nas área de engenharia, ciência e tecnologia de alimentos; com aumento da inclusão de Engenheiros de Alimentos como gestores de processos e produção. responsáveis por garantir de qualidade dos produtos nas indústrias que trabalham proteínas animais e vegetais.
Dificuldades encontradas pelo setor de Produtos à base de Proteínas Vegetais
Consumo
- Há uma fortíssima tradição e cultura de consumo de proteína animal dentre os consumidores que refutam a substituição integral pela proteína vegetal. Há portanto, esse fator de rejeição quanto à proteína vegetal que ainda resiste e aprisiona o seu crescimento — ainda que muito crescente, fato que a mantém como nicho de mercado em relação à proteína animal.
- Crescimento em escala é barrado pelos preços altos e flutuantes da matéria prima, que ainda é a soja na maioria das vezes, fazendo aumentar o preço para o consumidor.
- A soja ainda predomina como fonte de matéria-prima bruta, em que pese o crescente interesse pela importância da proteína isolada. Há percepção de que a soja traz benefícios à saúde se produzida com todos os requisitos de segurança que o alimento requer. Assim pode ser bem assimilada também pelos animais e fazer uma boa base para se produzir proteína animal
Produção
A maior dificuldade do setor de proteína vegetal é encontrar na sua base produtiva uma forma de produção em escala econômica voltada a torná-la menos vulnerável aos aumentos contínuos de preço da matéria-prima bruta, como soja e outros, sem grandes riscos de contaminantes.
Estratégias seguidas, normalmente tem sido a redução de custos via massificação das vendas — visando obter escala de produção, visto o alto custo da matéria-prima vegetal e oscilação em preços de mercado —. Necessidade de elevar qualidade da matéria prima vegetal segura quanto aos resíduos e contaminantes - criar incentivos fiscais – fomentar tecnicamente a produção – novas tecnologias de processos – crescente inclusão e formação de consumidores intensificando o marketing via “influencers” voltado para dietas vegetarianas ou mesmo veganas.
A conscientização da base da cadeia produtiva no uso moderado e controlado de defensivos agrícolas e práticas sustentáveis, tanto ambientalmente quanto sócio-economicamente.
Fontes: Elaborado por www.terraviva.com.br, baseado em consultas/pesquisas/leituras em diversas fontes de informações provenientes de agências multilaterais da ONU; FIL/IDF, bem como entrevistas a diversos especialistas, e artigos publicados na imprensa internacional e nacional, dentre eles NYTimes; Valor Econômico; Market data Forecast, aplicativo Xlei - carrossel n° 8 - CB FIL - 1°Open Day - A Gordura do leite e Saúde.
















