Leite, batata e tomate sobem mais que 10% em abril; veja por que está tudo tão caro
Alta Inflação - O grupo alimentação puxou para cima a composição do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de abril, segundo dados divulgados na quarta-feira (11) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O Índice desacelerou para 1,06% em abril, maior nível para o mês desde 1996 (1,26%). Entre os nove grupos de produtos e serviços que o compõem, a maior variação (2,06%) e o maior impacto (0,43 p.p.) vieram do grupo Alimentação e Bebidas.
Batata, leite, óleo de soja e farinha de trigo estão entre os que mais subiram.
Apesar de terem apresentado altas pequenas ou quedas em abril, alguns produtos se destacam pelos aumentos expressivos no acumulado de 12 meses. A cenoura, por exemplo, caiu 4,61% no mês; mas, no ano, já acumula alta de 178%.
O que explica essas altas?
Segundo Matheus Peçanha, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), os problemas climáticos foram o que mais contribuíram para esse cenário.
“Nós temos presenciado uma soma de problemas climáticos desde 2020”, afirmou Peçanha em entrevista à CNN.
Primeiro, o efeito La Niña perdurou ao longo do ano inteiro, culminando em uma inflação significativa nos preços dos alimentos e energia.
Logo depois, uma série de outros problemas climáticos apareceu. As geadas impactaram a produção de café, açúcar e pastos — prejudicando especialmente a pecuária.
Posteriormente, as fortes chuvas também prejudicaram os pastos (consequentemente interferindo na produção de carne e leite) e, especificamente, os hortifrútis.
O especialista ainda adiciona que, orbitando esses problemas, outros acontecimentos acabaram potencializando as altas: “os elevados preços do diesel encarecem o custo do frete; a guerra na Ucrânia aumenta os custos de fertilizantes e do trigo; o câmbio mais alto também acaba aumentando a exportação que, somados à demanda externa elevada de carne por parte da China, acabam reduzindo a oferta interna e subindo os preços”, explica.
“De modo geral, os custos estão sofrendo choques excessivos.”
Laticínios
Os laticínios como um todo – especialmente o leite longa vida – estão no topo da lista de alimentos com as maiores altas.
De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Universidade de São Paulo (USP), o avanço do preço do leite ao produtor é consequência da diminuição da produção no campo que, por sua vez, está atrelado ao aumento dos custos de produção e ao período de entressafra.
“A menor disponibilidade de pastagens, devido à estação do ano, eleva os custos da alimentação do rebanho, o que provoca a alta sazonal dos preços do leite no campo. Contudo, neste ano, o encarecimento dos insumos produtivos tem corroído as margens do pecuarista leiteiro, limitando os investimentos na atividade e diminuindo o potencial de oferta”, afirma o instituto em nota.
Segundo Rodolfo Margato, economista da XP, esse aumento tem forte influência do mercado de carnes.
“Os preços das carcaças e preços futuros de carnes estão em máximas históricas. Temos visto produtores aumentando os abates de fêmeas – ou seja, aumentando o abate do gado leiteiro – tendo em vista essa alta. Isso também reduz a oferta de leite, pressionando os preços para cima, explica Margato à CNN.
Peçanha adiciona ainda que o aumento no preço dos grãos, somado à chuva em excesso, gerou um desinvestimento no setor de pecuária leiteira. Produtores estão se retirando desse mercado que está menos lucrativo, o que pode ser algo negativo no longo prazo.
Segundo ele, mesmo que os preços melhorem, até que esses produtores voltem para esse mercado, o consumidor continuará sentindo as consequências no bolso.
Melhora?
Sem previsão na diminuição no preço de combustíveis, no final das tensões geopolíticas internacionais e em meio a um cenário de inflação elevada, os preços dos alimentos devem continuar pesando para o consumidor.
Matheus afirma que, no curtíssimo prazo, não deve ter uma melhora tão rápida. “Agora, por exemplo, era para estarmos finalizando a maioria das safras, mas elas estão, em sua maioria, prejudicadas. Até começar a próxima safra, na primavera, devemos ter essa pressão.”
“A previsão de normalizar essas chuvas é no inverno, pois é uma época de precipitação mais baixa. Resta torcer para que esse prognóstico de chuvas esteja correto”, finaliza.
















