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Economia Selectus nº 5654

Inflação vai perder força em 2020 com atualização da POF, prevê economista

Inflação - Há quase dez anos sem ter sua estrutura de pesos e componentes atualizada, a inflação brasileira pode estar superestimada, por ser calculada a partir de ponderações que não refletem mais de forma tão acurada os hábitos de consumo. Segundo estimativas de Bráulio Borges, economista-sênior da LCA Consultores, a incorporação da nova Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), a ser divulgada em julho, tende a reduzir a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Fonte: Valor Econômico

Para Borges, que também é pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), o impacto negativo no índice deve ficar entre 0,2 e 0,4 ponto percentual, efeito a ser concentrado em 2020, uma vez que os novos pesos serão considerados pelo IBGE a partir de janeiro. A visão de que a troca da POF deve diminuir o IPCA não é consenso entre economistas, que concordam, porém, com a necessidade de atualizações mais frequentes no levantamento, que orienta pesos de bens e serviços no indicador oficial de inflação. O IBGE vai incorporar a cesta de consumo apontada pela POF de 2017/2018 ao IPCA em janeiro do ano que vem. A última mudança de pesos de grupos e subitens, feita com base na edição de 2008/2009, ocorreu em 2012. Devido à restrição orçamentária enfrentada pelo órgão, a pesquisa, que é a mais custosa do IBGE, não foi a campo por dez anos, o dobro do prazo recomendado por organismos internacionais.

Quanto maior o intervalo entre as reponderações do IPCA, maior tende a ser o viés de alta na inflação gerado pela falta de atualização, aponta o economista da LCA. Boa parte da superestimação inflacionária é causada por um comportamento que já foi objeto de diversos estudos econômicos: quando o preço de algum produto sobe muito, a tendência é que os consumidores o substitua por similares. Por partir de uma cesta de consumo fixa, o IBGE desconsidera o chamado "efeito substituição", ao assumir que as pessoas continuam comprando as mesmas quantidades de determinado produto, mesmo após alterações severas de preços relativos. A metodologia de cálculo de índices de preços - que, no caso do IPCA, é uma média ponderada de 384 itens - é totalmente correta, diz Borges, mas acaba superestimando a inflação agregada ao longo do tempo, ao atribuir pesos mais elevados a produtos que, na verdade, perderam participação no orçamento familiar.

Inflação vai perder força em 2020 com atualização da POF, prevê economista

O pesquisador lembra, ainda, que a nova pesquisa será conhecida em um contexto diferente do da anterior, quando, devido ao aumento de renda e ao baixo nível de desemprego, itens como automóvel, geladeira e serviços pessoais ganharam relevância no IPCA. "A economia estava crescendo. Agora, a POF vai sair após um momento de quase depressão, que provavelmente provocou uma piora no mix de consumo das famílias", disse. "O problema é que, sem POFs mais frequentes, esse 'downgrade' pode ser carregado para frente." A demora em atualizar os pesos do IPCA também pode acabar elevando a inflação mensurada ao não incluir na coleta produtos lançados entre a vigência de uma POF e outra, acrescenta Borges, principalmente aqueles que passam constantemente por inovações tecnológicas, como eletroeletrônicos. Integrante do conselho consultivo do IPCA e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-RJ), Luiz Roberto Cunha pondera que, devido ao período mais longo que o normal entre a divulgação da antiga POF e da previsão de publicação da nova pesquisa, é mais difícil agora antecipar qual será o impacto dos novos pesos sobre a inflação. Em tese, a tendência é que aprimorações tecnológicas e o "efeito-substituição" tenham impacto deflacionário nos índices de preços, afirma Cunha. "Mas o momento agora é diferente. Enfrentamos em 2015 e 2016 uma das piores recessões, e o desemprego ainda está elevado." Nesse quadro, é possível, por exemplo, que os serviços, que estão rodando abaixo da inflação "cheia", tenham perdido representatividade, enquanto itens de consumo mais básico, como alimentos e tarifa de eletricidade residencial, aumentem sua participação, cogita. Por isso, o professor prefere não opinar sobre qual seria o efeito da nova POF sobre a inflação, mas destaca que alguns aprimoramentos estão sendo estudados pelo IBGE, fora do escopo da pesquisa de orçamento. O viés de alta gerado pelo "efeito substituição" é inerente à forma de cálculo dos índices, que têm uma cesta fixa de bens e serviços, afirma Fernando Gonçalves, gerente de Índices de Preços do IBGE. "Uma estrutura de pesos mais defasada é ruim para o índice, porque gera algum tipo de viés, mas, em razão de restrições orçamentárias, não temos conseguido atualizar a POF em intervalo inferior a cinco anos." Como forma de mitigar essa defasagem, o IBGE está estudando formas de realizar atualizações menores e, por isso, menos custosas, mas mais frequentes na POF. Gonçalves adianta, porém, que esse método, se aprovado, não deverá ser lançado antes de 2020.

Em apresentação no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em abril, técnicos do IBGE mostraram ferramentas que já estão sendo usadas para pesquisar alguns preços, mas devem ser ampliadas, como o uso de robôs. Segundo o gerente, o cálculo da variação dos preços de passagens aéreas e serviços bancários já é feito pela internet, como complemento à coleta presencial. Agora, o órgão está fazendo testes para usar essa ferramenta em outros preços de itens que têm sido mais comprados pelo e-commerce, como smartphones e livros, aprimoração que, se bem sucedida, deve ser inaugurada em janeiro do ano que vem, aproveitando a nova POF, segundo Gonçalves. Sobre serviços de streaming, como o Netflix, e aplicativos de transporte como Uber, Gonçalves afirma que os novos produtos só passarão a fazer parte do IPCA se for detectado que eles têm peso relevante na renda mensal das famílias. Para ser incorporado ao indicador oficial de inflação, um item precisa representar ao menos 0,07% da cesta de consumo

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