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Negócios Selectus nº 5563

Com Advent, Walmart retoma as 'superofertas'

Walmart - A nova gestão do Walmart no Brasil abandonou de vez o modelo de preços mais estáveis, sem promoções, e adotou uma política agressiva de descontos nas últimas semanas. O baixo crescimento nas vendas no segundo semestre acabou reforçando a decisão de rever a estratégia, disse uma fonte.

Fonte: Valor Econômico

Controlada há seis meses pela empresa de private equity Advent, a operação brasileira do Walmart está passando por mudanças importantes. A política de preços não é a única estratégia considerada equivocada. A estrutura comercial e até o sistema de tecnologia, que faz a ligação entre lojas, centros de distribuição e fornecedores, estão sendo revistos e podem mudar. A empresa voltou a criar áreas comerciais regionais pelo país, abrindo mão de um modelo centralizado. É uma tentativa de "dinamizar" a área comercial - um dos principais focos do novo presidente Luiz Fazzio, na função desde agosto -, fortalecendo políticas de compra locais, diz uma fonte a par do assunto. Em junho, a Advent anunciou a aquisição de 80% do Walmart Brasil - os americanos continuam com os 20% restantes. Em agosto, o Valor antecipou que, inicialmente, o fundo colocará R$ 1,9 bilhão na empresa até 2021, valor a ser consumido num plano de reestruturação profunda da empresa. Também foram feitas mais mudanças na linha de frente da varejista antes do Natal, dizem fornecedores e ex executivos. Ex-CEO do Carrefour de 2009 a 2013, Fazzio trouxe diretores da rede francesa rival para a equipe, a maioria executivos com quem já trabalhou. No fim de 2018, Daniel Mora, diretor comercial e de marketing dos hipermercados do Carrefour na França, foi contratado como novo diretor-executivo comercial do Walmart. Mora, nascido na França, torna-se um dos novos homens de confiança de Fazzio. Em agosto, a executiva Ana Paula Santos, ex-diretora de recursos humanos do Carrefour, voltou ao Walmart a convite de Fazzio (ela trabalhou na rede até 2017). Também foram contratados Fernando Lunardini, ex Carrefour, para diretoria-executiva de transformação, e Davi Ponciano (ex- Quero Quero) para a diretoria financeira. Quando Fazzio era CEO do Carrefour, ele e Mora trabalharam juntos, tendo Ana Paula e Lunardini na equipe. Na tentativa de ganhar agilidade, foi eliminado do organograma a função de vice-presidente operacional. O cargo existia até agosto, quando Bernardo Perloiro, que estava na função, deixou a rede. "Antes da Advent entrar, todas as bandeiras se reportaram a esse executivo, e agora todos tratam diretamente com Fazzio, para agilizar algumas tomadas de decisão", diz um diretor. Internamente, há algumas ações sendo estudadas e outras já implementadas no grupo, segundo fontes ouvidas. Sobre o modelo comercial, o Valor havia antecipado em junho que o formato de preços mais estáveis, chamado "Every Day Low Price" (EDLP), criado nos EUA e implantado em no país em 2011, poderia ser abandonado pelos novos donos. Na prática, o formato já tinha sido flexibilizado pelo comando local anterior, pressionado pela forte política de promoções de Grupo Pão de Açúcar e Carrefour.

A retomada da política de maiores descontos ocorre em paralelo a uma ação voltada para reduzir problemas em reposição nas lojas. "Não daria para voltar ao 'high low' se a loja estiver operando com ruptura nos itens com maior desconto, que trazem tráfego. Melhoraram abastecimento e voltaram com ritmo alto de ofertas nas lojas e na mídia", diz um executivo. Pelo 'high low', os preços mais baixos, ofertados em promoções, são compensados com aumentos em outras categorias de produtos. Em lojas do Walmart, em São Paulo, visitadas pela reportagem, produtos com preços mais elevados, em limpeza e beleza, têm descontos de 50% na compra de um segundo item, ação já implementada pelo rival Carrefour. "Muito do que ele [Fazzio] pensa e discute vem do que ele fez no Carrefour. Parte é um pouco da cartilha do varejo e deve funcionar, mas quando Fazzio estava no Carrefour, a gente não tinha essa massa de atacarejos espalhadas pelo país. Ele está tendo que lidar com uma outra competição", diz a fonte ligada à rede. O Valor apurou que o Walmart pode transformar hipermercados do grupo em unidades do Maxxi Atacado, a rede de atacarejo do grupo, ainda neste ano. São 43 Maxxi no país. O plano está sob análise, assim como quantas lojas poderiam ser convertidas - são cerca de 130 hipermercados com as marcas Walmart, BIG e Hiper Bompreço. A empresa também considera fazer nova migração de sistemas, para a plataforma criada pela rede Bompreço - operação com foco no Nordeste e adquirida em 2004. Isso evitaria ter que pagar pelo direito ao uso do sistema do Walmart daqui para frente. Além disso, o sistema nacional seria mais simples e ágil. "Os sistemas do Sonae [rede comprada em 2005] e do Bompreço são considerados bem 'redondos', mas ficaram de lado depois que o Walmart decidiu tirar tudo e colocar o mesmo que rodava nos Estados Unidos", diz fonte. "O que facilita uma mudança agora é que parte dessa equipe de tecnologia própria continua na empresa." Esses sistemas funcionam, por exemplo, para cadastrar pedidos para a indústria e reunir dados tributários. Por meio deles, é possível ver a movimentação de venda de cada loja em tempo real. "Já se verificou que uma troca dessa magnitude hoje leva, pelo menos, dois anos. Quando migraram para o sistema próprio do Walmart, foram quatro anos nesse trabalho até todas as regiões do país terem uma plataforma única em 2016", diz a mesma fonte. Outra avaliação em curso é a hipótese de se usar a marca Bompreço nacionalmente. Um estudo deverá embasar a decisão - Fazzio apoia, inicialmente, a ideia de usar a bandeira Bompreço, mas pediu uma análise mais ampla. O portfólio de marcas é um ponto em aberto, depois da colcha de retalhos que acabou sendo criada durante a gestão dos americanos à frente da operação. Entre 2016 e 2017, quando já chegava ao fim a gestão dos estrangeiros, a empresa anunciou um projeto de reforma e transformação de marcas regionais, no Nordeste e no Sul, em lojas do Walmart. Mas o plano parou no meio do caminho. O projeto já estava perdendo força e os novos donos do Walmart interromperam o investimento. Eles acabaram herdando um portfólio em que, numa mesma cidade, há hipermercados do Walmart e do BIG, por exemplo. O Walmart tem nove bandeiras que somam 437 lojas. O GPA Alimentar tem o dobro de lojas e seis marcas. Não houve, até o momento, demissões em cascata ou fechamento de lojas em massa - desde a troca de controle, uma unidade foi fechada, em Taubaté (SP). Isso não quer dizer que reduções de estrutura não possam ocorrer, a depender da análise de resultados das lojas após o retorno do "high low", diz um executivo. Procurado, o grupo preferiu não comentar detalhes da nova estratégia.

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