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Globalização E Mercosul Selectus nº 5246

Crescimento deixa de pressionar inflação nos países mais ricos

Inflação/Países ricos - Os principais países do mundo estão tendo crescimento econômico vigoroso. Mas a inflação, historicamente tida como companheira do crescimento, está ausente. Isso está intrigando os analistas. A economia americana cresceu 3%, em termos anualizados, no segundo trimestre, mas em julho a inflação ao consumidor subiu apenas 1,7% ao ano.

Fonte: Valor Econômico

A economia japonesa cresceu 4% (anualizados) no mesmo trimestre, em seu maior período de expansão desde 2006. Mas a inflação continua próxima de zero, como ocorre há quase duas décadas. A inflação na zona do euro está empacada em 1,5%, apesar da forte recuperação. Segundo a teoria econômica, os preços são definidos pela oferta e demanda. Quando a expansão é forte, as pessoas exigem mais produtos, e as empresas precisam oferecer melhores salários para contratar trabalhadores, e os preços sobem. Mas há sinais de que essa relação foi quebrada. Se assim for, as consequências são vastas para a elaboração da política econômica e para os mercados financeiros. A relação crescimento-inflação é o cerne dos bancos centrais: eles estabelecem uma meta de inflação - em geral em torno de 2% - e abaixam os juros para o ajuste de preços sempre que a demanda cai. Se houver risco de que gastos excessivos pressionem a inflação para acima da meta, os BCs sobem os juros para esfriar o crescimento. E isso é essencial para as decisões dos investidores sobre onde colocar dinheiro: títulos públicos são boa aplicação quando os juros caem, e a queda das taxas é tomada como sinalização de preocupações quanto ao crescimento, de modo que ações e títulos se movem normalmente em sentido contrário. Em 2017, porém, e durante boa parte do período pós-crise, títulos e ações estão se movendo na mesma direção. Neste ano, o S&P 500 subiu quase 10%, ao passo que os preços dos Treasuries de 10 anos subiram 6%, provocando uma baixa próxima de 2% na taxa de retorno dos títulos de referência dos EUA - um nível normalmente mais associado a estresse financeiro que a melhora no crescimento. "Não há dúvida que é uma contestação fundamental ao conhecimento de política monetária", diz Adam Posen, do Instituto Peterson para Economia Internacional. Não faltam explicações para a ruptura do casamento crescimento-inflação. O presidente do BC Europeu, Mario Draghi, argumentou que os dados não contabilizam pessoas em emprego temporário e fora da força de trabalho - ou seja, a economia não estaria tão vigorosa como sugerem os números. A diretora do Fed (o BC dos EUA) Lael Brainard disse que "uma explicação simples pode ser a experiência de inflação persistentemente baixa". Como a inflação tem sido baixa, e passou a maior parte da década passada assim, famílias e empresas agora esperam uma inflação baixa também no futuro. Paul Donovan, economista-chefe da UBS Wealth Management, diz que o mercado de títulos dá um sinal errado sobre a inflação. Segundo ele, "os mercados são influenciados" pela demanda extraordinária por títulos de dívida "seguros", criada pelo envelhecimento da população, regulamentação e programas de compra dos BCs. Mas também é possível que algo mais profundo tenha mudado. Entre as possíveis explicações estão a globalização, o declínio dos sindicatos e a ascensão de grandes multinacionais que seguram os preços ao consumidor, em seu esforço para conquistar fatia de mercado. Os mercados não inventaram essa inflação baixa. O desemprego no mundo desenvolvido caiu a níveis de antes de 2008, então, teoricamente, as empresas deveriam dar salários mais generosos para atrair trabalhadores e

subir os preços para compensar custos. Nenhuma das duas coisas acontece. Uma explicação é que o trabalhador não consegue exigir aumentos. Em junho, o Banco de Compensações Internacionais (BIS) apontou um vínculo "significativo" entre salários e a força dos sindicatos. A sindicalização caiu pela metade em quatro décadas. Enrique Martínez-García, do Fed de Dallas, publicou estudo mostrando que a globalização faz parte da razão pela qual a inflação tem sido baixa e apática ao crescimento. As empresas podem terceirizar a produção ou importar, se a massa salarial ficar alta, em vez de subir os preços. A China inundou o mercado global com seus produtos baratos, rebaixando os preços. Os dados do BIS mostram que, nos EUA, 10% da mudança no custo trabalhista entre 2006 e 2016 foi determinada pelo preço da mão de obra no exterior, ante 2% entre 1995 e 2005. No mundo, subiu de 11% para 22%. O Fed de Dallas começou a "considerar seriamente o impacto da globalização sobre a inflação", disse Martínez-García. O que torna o enigma difícil de ser solucionado é que a inflação ficou em torno das metas das autoridades monetárias por mais de duas décadas, até 2008, após disparar nos anos 1970. Os BCs receberam então o crédito por subjugar a inflação, elevando juros e esfriando a economia. Mas muitos investidores duvidam que os BCs possam produzir mágica semelhante, porém reversa. "A inflação não é mais um indicador antecedente de crescimento", diz Didier Borowski, chefe de pesquisa macroeconômica da Amundi, maior gestora europeia de ativos. Ele disse que "uma concorrência muito mais intensa em nível mundial" está levando os produtores a fixarem seus preços mais agressivamente. De fato, o foco de muitos analistas está agora no poder de mercado de gigantes tecnológicas, como a Alphabet e Amazon, e não em explicações tradicionais baseadas em oferta e demanda. "Quando a Amazon entra num mercado, provoca uma queda nos preços", diz Jason Helfstein, da Oppenheimer. O presidente do Fed de Chicago, Charles Evans, referiu-se à compra da Whole Foods pela Amazon como exemplo de tecnologia disruptiva que mantém a inflação baixa. Em muitos manuais de economia, maior demanda resulta em preço maior. No mundo real, porém, muitas indústrias se beneficiam da economia de escala. Para elas, produzir mais é mais barato - e não exige mais trabalhadores, porque mercados maiores podem estimular investimentos em equipamentos que poupam mão de obra. Então, mesmo que a demanda suba, os preços não sobem. Dados dos EUA nos últimos 60 anos mostram que a inflação associada a bens produzidos por setores onde há economias de escala - como vestuário, tecnologia e automóveis - é muito menor do que em outros. A partir de 1999, essa inflação se tornou negativa, mesmo quando os preços dos serviços subiam 3% ao ano. No setor de tecnologia, a inflação no início de 2017 era negativa em quase 7%. "Quanto mais gente estiver no mercado, mais valioso é aderir à rede dessas pessoas", diz William Brian Arthur, professor-visitante no Instituto Santa Fé, sobre empresas de tecnologia. Neste mundo, "é bem mais difícil prever a inflação".

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