Japão avalia aprofundar relações comerciais com o Mercosul
Mercosul - O gabinete do primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, enviou um dos principais especialistas em negociações comerciais do país ao Brasil e à Argentina para avaliar se as posses dos governos de Michel Temer e Mauricio Macri poderão de fato levar a uma maior abertura comercial dos principais integrantes do Mercosul.
Em sua passagem pelo Brasil, a mensagem do professor Yorizumi Watanabe aos seus interlocutores do governo e do setor produtivo foi clara: um acordo com o Japão normalmente gera, além de um impulso nas trocas comerciais, um aumento no número de empresas japonesas interessadas em operar em terceiros países ou blocos comerciais que decidem integrar suas cadeias produtivas uma oportunidade para ampliar investimentos e criar empregos. Acadêmico sênior da Universidade de Keio, instituição privada fundada em 1858 em Tóquio, Watanabe foi enviado como especialista pelo governo de seu país com a missão de perscrutar os dois mercados, após as recentes visitas ao Japão do presidente Michel Temer e da vice-presidente argentina, Gabriela Michetti. Em entrevista ao Valor, ele lembrou que o Japão já tem acordos de livre comércio com países do Sudeste Asiático, está avançando com o Acordo Transpacífico e negociações com a União Europeia. Na América do Sul, tem acordos com praticamente todos os principais parceiros que estão voltados para o oceano Pacífico. No entanto, o país sente dificuldades em negociar com o Mercosul devido às amarras institucionais do bloco. Watanabe argumentou, por exemplo, que empresas japonesas ajudaram países do Sudeste Asiático a integrar suas cadeias produtivas. Em relação ao México, com quem o Japão tem um acordo desde 2005, o número de companhias japonesas lá instaladas subiu de 330 para 957. "Algumas pessoas dizem que o acordo com o Japão foi mais positivo que o Nafta [para o México]", destacou. "Com os 15 acordos já assinados [pelo Japão], TPP e acordo com UE, mais de 60% do comércio japonês será coberto por acordos de preferência comercial." O especialista japonês acrescentou que, entre os países da Aliança do Pacífico, só falta completar as negociações com a Colômbia. E acrescentou que a parceria com o Chile já ajudou o vinho produzido no país andino a superar em volume as exportações francesas do produto, o que demonstraria que tais acordos podem ajudar produtos agrícolas a entrar no mercado japonês. "O que devemos fazer em relação ao Mercosul? Devemos esperar até uma espécie de Comissão do Mercosul ser estabelecida? Ou devemos negociar com uma espécie de unidade colegial de cinco governos, incluindo aí Venezuela? Difícil. A bola está do lado do Mercosul", afirmou. "Agora há novos governos no Brasil e na Argentina e estamos interessados em aprofundar nossas relações econômicas, mas temos que atacar essas questões institucionais. O Japão está pronto para avançar com o Brasil, e a bola está com o Brasil." Hoje, segundo dados do governo federal, há cerca de 700 empresas japonesas operando no Brasil. Segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, o superávit acumulado pelo Brasil nas trocas bilaterais entre janeiro e outubro deste ano soma US$ 785,63 milhões resultado de US$ 3,81 bilhões em exportações e US$ 3,02 bilhões em importações. Envolvido nas grandes negociações comerciais das quais o Japão participou nas últimas duas décadas, Watanabe ocupou altos cargos no Ministério dos Negócios Estrangeiros de seu país. O professor não demonstra otimismo com um aumento do comércio internacional, mas está confiante de que os Estados Unidos manterão o Acordo Transpacífico, "uma questão de relevância para a liderança global dos EUA". Segundo ele, o presidente eleito Donald Trump "muda o que diz" e um Congresso majoritariamente republicano pode ajudar o partido a pressioná-lo. Para o professor, o reconhecimento da China como economia de mercado não é central para o Japão, mas sim para os países que mais adotam medidas antidumping contra produtos chineses. Já em relação ao Brexit, o professor afirmou que o Japão já enviou a Londres um pedido de manutenção do atual ambiente de negócios para que as empresas instaladas no Reino Unido continuem a acessar com liberdade a União Europeia. "Não é um movimento protecionista. Eles [britânicos] querem sua soberania nacional de volta, mas são favoráveis à liberalização comercial", disse, ponderando que o Reino Unido terá dificuldades de recursos humanos para tantas frentes de negociação que se iniciarão um acordo para firmar as condições do Brexit, um acordo comercial com a União Europeia, um acordo com a OMC, renovar parcerias com outros países sozinho e negociar novos acordos de livre comércio com outros países ou blocos.
















