A guerra Rússia x Ucrânia continua – o que isso significa para os laticínios?
Rússia x Ucrânia – A guerra na Ucrânia passou de um ano, e não existe nenhuma perspectiva de quando e como o conflito irá eventualmente acabar, o que deixa muito mais perguntas do que respostas a respeito do futuro da indústria de laticínios.

Desde o início de março do ano passado, as sanções ocidentais colocaram à prova a estabilidade da indústria de laticínios russa. Um dos primeiros problemas que surgiu foi no segmento de empacotamento, especialmente depois que a Tetra Pack tomou a decisão de suspender algumas de suas operações no país.
Na Rússia, perto de 600 companhias usavam embalagens Tetra, estima Ivan Fedyakov, diretor geral da think tank Infoline Analytics, com sede em Moscou. Ao deixar o país, a Tetra Pack passou sua fábrica russa para a administração local, que não conseguiu manter a qualidade dos produtos lançados no mesmo nível, admitiu Fedyakov, acrescentando que também há reclamações acerca da estabilidade.
A Tetra Pack não foi a única a tomar a decisão de romper as relações com os clientes russos. O afastamento da finlandesa Stora Enzo e da norueguesa Elopak foi uma prova adicional imposta à cadeia de suprimentos. Diante da crise das embalagens que atingiu em cheio a indústria de laticínios, as autoridades russas chegaram a sugerir o retorno às latas de metal, usadas para armazenar e transportar leite na era soviética. Isso, porém, não chegou a acontecer, pois a crise foi contornada no segundo semestre de 2022.
Sanções
No momento da redação deste artigo, a União Europeia (UE) estava trabalhando no décimo pacote de sanções contra a Rússia.
As companhias de lácteos russas se antecipam, caso ocorram novas sanções que atinjam o fornecimento direto de matérias-primas e tecnologias europeias.
Como exemplo de um impacto para o setor, está a produção de creme azedo, disse Sergey Bachin, proprietário da holding agrícola Agrivolga à agência de notícias local RBC. A Rússia importa 90% do fermento necessário para a produção do creme de leite azedo. “Faltam biofábricas para a produção de fermentos. Existe apenas uma em Uglich e pequenos laboratórios que estão tentando alguma coisa nesse sentido. Mas eles somente atendem 10% da demanda e atualmente, um pouco menos em termos da necessidade de culturas iniciais”, disse Bachin.
A grande dependência de importação do exterior, principalmente da Europa, de culturas iniciais também é observada para a produção de queijos, iogurtes e praticamente todos os segmentos de produtos lácteos fermentados, exceto o kefir. O Ministro da Agricultura da Rússia, em resposta à declaração de Bachin, disse que a indústria de laticínios russa “recebe todas as matérias-primas e componentes necessários para esta produção, incluindo culturas iniciadoras”. Acrescentou ainda que mais 2 fábricas estão em construção no país.
Ludmila Manitskaya, diretora executiva da união russa das indústrias de laticínios, confirmou que a Rússia pode substituir o fermento importado, embora isso possa acarretar problemas com a qualidade. “Temos fermentos iniciadores. Duas biofábricas – Uglich e Barnaul, que podem atender completamente o mercado. “É claro que os fermentos importados são mais avançados tecnologicamente”, disse Manitskaya, acrescentando, no entanto, que durante a era soviética, as referidas fábricas atendiam à demanda de fermento de toda a União Soviética, quando a produção era 3 vezes maior do que na Rússia moderna.
Observou ainda, que um problema é que as fábricas se desenvolveram lentamente e estão atrasadas em termos de tecnologia.
Tecnologias importadas continuam chegando
As sanções ocidentais impactam principalmente a indústria de laticínios russa que tem forte dependência de tecnologias importadas.
Os principais fornecedores de equipamentos para a indústria de laticínios da Rússia são Polônia, Alemanha, Áustria, Itália e Holanda, estima Albina Koryagina, parceira da empresa de pesquisa russa NEO Center, acrescentando que os países relacionados fornecem de 40% a 60% da tecnologia utilizada. China e Turquia, fornecedores alternativos, são responsáveis, atualmente por 1,5% e 2% dos equipamentos. A Bielorrússia e Cazaquistão enviam também equipamentos para a Rússia.
“A Rússia tem a oportunidade de aumentar as compras, e nós definitivamente não ficaremos completamente sem equipamentos. O problema é qualidade”, acrescentou ela.
As tecnologias ocidentais, no entanto, estão fluindo para a Rússia, mostrou uma pesquisa realizada pelo jornal russo, Moskovskaya Gazeta.
“Existem inconvenientes relacionados à entrega, mas a logística está estabelecida há muito tempo e resolvemos esses problemas. O custo aumentou (em comparação com os tempos antes da guerra), algo em torno de 15% a 20%. Mas isso não é tão mais alto em relação a março de 2022, quando as fronteiras foram fechadas.
Preocupações com o consumo
O futuro do consumo russo, no entanto, permanece indeterminado. Em 2022, de 0,5 a 1 milhão de russos fugiram do país, estimam jornalistas independentes. Se esse cenário estiver correto, a onda migratória do ano passado pode ter sido a maior, desde a década de 1920.
Assume-se que a Rússia perdeu perto de um milhão de consumidores em 2022, o que pode afetar a demanda, disse Mikhail Mishenko, diretor geral da empresa de pesquisa russa Dairy Intelligence Agency.
“Pode haver falta de pessoal [na indústria de laticínios russa] e 2023-2024 pode não ser um ano muito bom para a indústria de laticínios”, disse Mishenko.
Por outro lado, num contexto econômico sem precedentes de incertezas, a previsão é de que 72% dos clientes russos terão que cortar suas despesas, estima o sindicato Soyuzmoloko. Em 2022, alertou sobre as consequências da quebra do poder de compra da população russa. Enquanto as vendas continuam dinâmicas para produtos lácteos chamados convencionais, como creme e kefir, no segmento dos lácteos “modernos”, a situação é descrita como catastrófica.
“O mercado vai simplificar, e a ampla oferta de laticínios a qual nos acostumamos nos últimos anos não mais haverá”, admitiu Soyuzmoloko.
Setor lácteo na Ucrânia
A Ucrânia certamente terá um aumento nos preços dos produtos lácteos, especialmente nos segmentos de alto consumo de energia, disse Elena Zhupinas, chefe da associação ucraniana dos produtores de leite. Em 2022, a indústria de laticínios do país sofreu a maior destruição, especialmente nas regiões leste e sul. Como resultado, a produção de leite no último ano encolheu em 1 milhão de toneladas, passando para 7,66 milhões de toneladas – o nível mais baixo de todos os tempos.
As fazendas familiares tiveram uma queda severa na produção. No total, este segmento produziu 5 milhões de toneladas de leite, 15,3% menos do que em 2021. A população, fugindo da guerra dos territórios ocupados e das zonas de combate, foi obrigada a vender ou abandonar seu rebanho”, disse a associação.
Nos últimos meses, a indústria de laticínios ucraniana vem sofrendo com constantes quedas de energia, já que os ataques russos impactaram a infraestrutura de energia desde outubro.
“O aumento dos preços dos produtos lácteos na Ucrânia é explicado pelo consumo de energia. Um grande número de fábricas está sendo forçada a usar geradores a diesel, e isso aumenta os custos de processamento do leite”, disse Zhupinas, acrescentando que queijo e manteiga estão entre os segmentos de maior consumo de energia e seus produtores estão sendo fortemente impactados.
O consumo de lácteos na Ucrânia também foi prejudicado por uma série de fatores. Milhões de ucranianos fugiram para países vizinhos, disse Yana Linetskaya, analista da associação de produtores de leite
Diversificação das exportações de lácteos e medidas para apoiar a demanda doméstica, como a redução de impostos, podem desempenhar um papel importante na indústria de laticínios ucraniana em 2023, disse Linetskaya.
Na última semana de fevereiro, a Ucrânia sofreu com a queda de energia. O operador local, Ukrenergo, disse que estava trabalhando para reparar rapidamente a infraestrutura, antes que a Rússia pudesse causar novos danos. Há esperança de que, com o fim so inverno, os ataques às capacidades de geração e transmissão de energia da Ucrânia cessem.
No entanto, as perspectivas de longo prazo para a indústria de laticínios ucraniana permanecem incertas.
Atualmente, a maioria dos produtores de leite enfrenta dificuldades financeiras. Quanto mais a guerra durar, pior será a situação da indústria de laticínios ucraniana.
















