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Especiais Selectus nº 6484

Chile – O mundo precisa produzir mais, com menor pegada de carbono

Mudanças climáticas – O consumo de leite aumentará 1,4% no planeta, a cada ano, de acordo com as Perspectivas Agrícolas OCDE e FAO 2022-2031, advertindo sobre a necessidade de aumentar a produção de alimentos, especialmente os de alto valor biológico, para uma população que se estima alcançará dez bilhões de pessoas em 2050.

Fonte: Fonte: Agro Media – Tradução livre: www.terraviva.com.br | Foto de capa: Photo by Jason Leung on Unsplash
Chile – O mundo precisa produzir mais, com menor pegada de carbono

Tudo isto em um contexto de mudanças climáticas. Ou seja, o mundo precisa produzir mais, com menor pegada de carbono.

No Chile, a indústria de laticínios – a principal atividade econômica de duas regiões do país, e propriedades produtoras que vão desde Valparaíso a Los Lagos e 2,3 bilhões de litros processados a cada ano – trabalha incorporando tecnologias para garantir a segurança alimentar dos lácteos em tempos de aquecimento global, além de técnicas de produção de menor impacto em todos os níveis.

A estratégia do setor é avançar para a consolidação de um sistema nacional de produção sustentável, que integre pequenas, médias e grandes empresas, a toda a cadeia produtiva, assegura Octavio Oltra, gerente geral do Consorcio Lechero.

Entre as inovações destacam as salas robotizadas para ordenha de vacas com robôs, sensores automatizados para detectar a qualidade do leite e a saúde animal, fertilização inteligente das pastagens via drones e forragens que geram menor emissão de gases pelo rebanho.

“O setor lácteo é bem diverso e é parte de nossa raiz cultural e rural. Os pequenos produtores cresceram em número de animais, e são, hoje, importantes apoios ao setor. Estamos focados em todas as ações de sustentabilidade e inovação tecnológica que incorporem todos os tipos de produtores”.

O representante do organismo setorial explica que assinou convênio com o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário (INDAP) para transferir inovações tecnológicas para os pequenos produtores. Mas, independentemente do tamanho, todos os produtores têm acesso ao recente programa de certificação de sustentabilidade de fazendas leiteiras, e cujo objetivo é reconhecer os aspectos positivos do setor e resolver lacunas existentes nos processos sustentáveis em suas adaptações ao entorno.

O Consorcio Lechero destacou que oito de cada dez produtores do país garantem pastagens para as vacas e que um alto percentual tem conseguido conviver de forma harmônica com o ecossistema. No Chile existem mais de 4 mil fazendas produtoras de leite (mais da metade são empresas familiares), com quase 80% destes concentrados nas regiões de Los Ríos e Los Lagos.

Para um carbono neutro

A produção de leite se relaciona com onze dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODD) até 2030 dentro da Agenda das Nações Unidas. Octavio Oltra destacou que a indústria local, inserida no mercado mundial, deve continuar fortalecendo melhorias em todos os elos da produção com o objetivo de chegar a ser um setor carbono Zero no médio prazo.

“A sustentabilidade é hoje um imperativo para qualquer indústria, em especial para aquelas relacionadas com a produção de alimentos. Para o setor leiteiro nacional, que a cada ano nutre nossa população, exporta mais de 280 milhões de litros e gera milhares de empregos, principalmente na zona sul do país. Impactar positivamente em termos econômicos, sociais e ambientais é fundamental para a viabilidade futura do segmento”, afirmou Oltra.

As inovações impulsionadas pelo setor vão em duas direções. De um lado, a incorporação de soluções tecnológicas aos processos produtivos; e de outro, técnicas de manejo que têm a finalidade de gerir da melhor forma possível o entorno e reduzir a emissão de gases de efeito estufa (GEE) a partir, por exemplo, da alimentação animal.

Para ele, foram introduzidas novas metodologias de pastoreio, com disponibilidade de forragens que influenciam no metabolismo animal (o que minimiza a pegada de carbono dos rebanhos), e técnicas de manejo de ecossistemas relacionados com a agricultura de precisão. Aí se destacam estratégias para a aplicação de fertilizantes através de drones, guiados por GPS, o uso de produtos elaborados a partir de recursos naturais, a introdução de técnicas de pastoreio regenerativo e o investimento em novas máquinas agrícolas.

O Consorcio Lechero destacou que existe um avanço substancial no manejo e conservação dos ecossistemas e no pastoreio dos animais, que melhoram as condições do solo para garantir a produção dos animais.

“No caso dos fertilizantes, por exemplo, os alimentos das plantas, foram incorporados produtos naturais como os dejetos das vacas, que é um fertilizante natural, e outros biofertilizantes que permitem à planta crescer da melhor forma possível e manter as condições ideais do solo. O propósito é manter a biodiversidade dos solos e evitar ao máximo o uso de produtos químicos”.

Da mesma forma, a conservação da vegetação em torno das fazendas é um fator para reduzir a pegada de carbono, já que ao preservar a flora das regiões produtoras garantirá que as árvores e as plantas atuem como captadoras de CO2. “Ao intensificar estas características, e contribuir para a conservação dos campos e da flora nativa, conseguimos que algumas fazendas alcancem a emissão zero ou até carbono negativos”.

Tecnologia sustentável

Em termos de incorporação de ferramentas tecnológicas, uma das mais novas é a robótica. O Consorcio Lechero explica que estas soluções têm muitas vantagens, ainda que sejam complementares a outras opções da produção de leite. Através da automatização se resolvem aspectos relacionados com a falta de mão de obra, e contribui para a existência do avanço para maiores graus de especialização.

“No caso da ordenha, a automatização ou o uso de robôs permite ter leite de boa qualidade e manter a extração voluntária por parte do animal na maioria dos casos. Tem efeitos positivos na qualidade da produção, mas também no manejo do leite e na análise da saúde do animal. A tecnologia das salas de ordenha avança para altos níveis de sofisticação, o que também se relaciona com maior eficiência”, explica Oltra.

Hoje, produtores de distintos tamanhos incorporam ferramentas de automatização. Em algumas salas de ordenha existe uma automatização completa, com robôs; e outras são semi-automatizadas, mantendo as pessoas em locais mais especializados. A automatização também é utilizada na irrigação, um fator importante em termos de produção industrial em um contexto de menor disponibilidade de recursos hídricos, como no sul do Chile.

O executivo do organismos setorial afirma que a tecnologia “é uma ferramenta para que o setor cumpra seus objetivos de desenvolvimento sustentável, e se projete no tempo. Por isso, estamos adotando de forma permanente melhores condições para os produtores, fazendas, trabalhadores, animais e solo... sem uma melhora contínua de todo o ciclo de produção, com novas tecnologias e sem sermos melhores no cuidado com o entorno, não podemos nos projetar no futuro”.

Alimento vital do século

No contexto de um planeta superpovoado e com crises climáticas, o cultivo e a produção de alimentos será crítico. Somente sobreviverão aqueles produtos que tenham um impacto limitado, um efeito virtuoso para o meio ambiente e proporcionem nutrientes fundamentais para os seres humanos. Segundo Oltra, a indústria de laticínios chilena está em vias de preparação para responder firmemente este desafio.

Através do programa Gracias a La Leche, o Consorcio Lechero trabalha com a comunidade científica das universidades chilenas para encontrar evidências em relação à importância do consumo para a população. Isto é principalmente importante em relação ao futuro da saúde, as mudanças demográficas, a prevenção e manejo de doenças crônicas não transmissíveis e problemas como a desnutrição infantil.

Recentemente, por exemplo, o Chile incorporou um novo regulamento para enriquecer o leite com vitamina D, um dos nutrientes fundamentais para as pessoas, e cujos níveis se encontram em queda em todas as regiões do país.

Rodrigo Valenzuela, acadêmico do INTA da Universidade do Chile, faz parte do comitê científico do programa Gracias a La Leche e editor do livro “Lácteos, Nutrición y Salud”, um documento em que os pesquisadores locais fornecem informações científicas sobre o tema, destaca que o leite é um alimento relevante para reverter o déficit de nutrientes de alto valor biológico na população.

“A FAO considera que o leite e seus derivados são alimentos sustentáveis para a humanidade devido a dois fatores: o baixo impacto de seus processos produtivos em relação a outras indústrias; e a oferta de nutrientes de alto valor biológico para a saúde.

Apesar de sua capacidade produtiva e a alta registrada nos últimos anos, o Chile está abaixo das recomendações internacionais de consumo e longe dos níveis de países desenvolvidos.

O país produz, anualmente, 2,650 bilhões de litros de leite, 230 mil toneladas de queijos, leites em pó e outros derivados. Apesar deste potencial, o consumo per capita médio da população nacional (160 litros) é inferior ao indicado pela FAO (187 litros). Algumas nações europeias chegam perto de 300 litros por habitante/ano e a média dos países desenvolvidos é de 250 litros.

“A sustentabilidade é fundamental em qualquer setor, mas especialmente em segmentos relacionados aos alimentos. A tendência internacional aponta para o desenvolvimento de sistemas de produção que sejam sustentáveis em seu conjunto; nutricionalmente ricos, que convivam de forma respeitosa com o meio ambiente, que minimizem a geração de emissões e além do mais sustentem a economia local e as pessoas”, concluiu Octavio Oltra.

Acesse aqui a matéria na íntegra

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