Leite regenerativo – Encontrando o que funciona
Processos regenerativos – A produção regenerativa do leite pode ajudar a equilibrar os ecossistemas da Terra, enquanto produzem nutrição de alta qualidade, e torna as fazendas e a alimentação mais resiliente.

Recentemente, um grupo de especialistas introduziram um novo projeto “Regen Dairy”, delineando os desafios e oportunidades de lácteos regenerativos e discutindo como pode ser elaborado um projeto para o seu desenvolvimento.
O Regen Dairy definirá o que consiste em lácteos regenerativos – em toda a cadeia de suprimento.
O projeto tem o objetivo de engajar agricultores e empresas de alimentos em torno de uma visão prática para a produção global de leite que seja lucrativa e que também restaure sua relação com a natureza. A visão pretende ser global, mas as soluções devem ser locais, refletindo as diferenças dos sistemas agrícolas e o clima regional.
O projeto Regen Dairy foi criado pela FAI Farms e Farmwel em colaboração com várias empresas globais de alimentos, incluindo Unilever, Barry Callebaut, Arla Foods, Woolworth South Africa e Ben & Jerry 's.
Finnlo Costain, CEO da Farmwel com sede no Reino Unido, moderador do evento, observou que a agricultura regenerativa pode ajudar a restabelecer o equilíbrio da natureza, mitigando os efeitos do aquecimento global, criar uma paisagem resiliente, restaurar a biodiversidade, a saúde do solo e o ciclo da água. Ele pode fazer isso enquanto produz alimentos de alta qualidade e garante que o meio rural e as empresas de alimentos se tornem menos vulneráveis aos riscos econômicos, sociais e ambientais.
Reconectando o leite ao solo
Klass Jans van-Calker, Gerente global de Sustentabilidade da Unilever, observou que, ao se desenvolver, a produção de leite foi se desconectando dos sistemas sustentáveis de alimentos. A vaca é um animal incrível que pode digerir capim e contribuir para tornar os sistemas agrícolas mais sustentáveis. Mas, em algum momento do tempo, o setor se desconectou das outras culturas, dos outros sistemas agrícolas por questões de custos. E é onde as soluções precisam ser encontradas, disse ele.
Nos últimos 20 anos, a produção de leite passou a focar na sustentabilidade, bem como em evitar danos. Mas a agricultura regenerativa analisa a contribuição para a biodiversidade, economia de solo através do uso de terras marginais alimentadas com resíduos vegetais e a adição de esterco do gado para plantio de culturas, disse van-Calker. Isso leva ao crescimento da biodiversidade, produzindo água limpa, sequestrando carbono e reduzindo as emissões de metano.
A indústria de laticínios está se movendo para não causar danos, e genuinamente, contribuir com boas práticas, fazendo uma importante mudança.
Van-Calker disse que existe uma circularidade na agricultura regenerativa, onde a produção pecuária – ovos, leite, e carne – não está competindo com insumos para produção da alimentação humana. Ao usar plantas marginais para pastagens e descarte de alimentos, a agricultura regenerativa se torna complementar às culturas.
O Regen Dairy não é um objetivo que pode ser alcançado da noite para o dia e não existe apenas uma forma. A solução será diferente de fazenda para fazenda. No entanto, o objetivo é construir sistemas produtivos que sejam menos dependentes de insumos e menos dependente da volatilidade do mercado, tornando-se mais resilientes.
Encontrando soluções
Oistein Thorsen, CEO da FAI Farms, falou sobre o projeto que a FAI e a Farmwel estão elaborando em colaboração com grandes companhias e produtores de leite. O objetivo do Regen Dairy é engajar diretamente os produtores de leite e as indústrias de alimentos em torno de uma visão produtiva, prática e lucrativa no setor lácteos global que também restabeleça suas relações com a natureza, disse ele.
“Trata-se de começar a entender como é a produção de leite regenerativa de agora”, disse ele. “O que os agricultores estão fazendo que causam impacto regenerativo em suas terras? Estamos documentando essas histórias”.
Um dos aspectos chaves do projeto Regen Dairy é a abordagem “ser centrada no usuário”. Thorson explicou que essa metodologia foi desenvolvida nos projetos elaborados para o setor de serviços mas não é comumente utilizada na agricultura. A metodologia aplicada incluirá a criação das pessoas em sua jornada diária para realmente entender os principais desafios e oportunidades que darão suporte. “Para o produtor de leite que adotar esse método, será o que ele realmente precisa, em oposição ao que supostamente poderia precisar. Essa é a abordagem de baixo para cima”, disse ele.
O projeto visa facilitar mais conversas entre os produtores regenerativos. O objetivo é facilitar discussões e troca de práticas entre as pessoas que fazem isso todos os dias, disse ele.
“Os agricultores começam de diferentes lugares e contextos, e as pressões e oportunidades são diferentes porque as práticas variam nas diferentes partes do mundo”, disse ele.
Thorsen menciona que existe muita discussão sobre o que é exatamente regenerativo. Deve ser o foco em práticas, princípios e resultados?
A ideia é entender como medir a produção de leite regenerativa atualmente. Através de entrevistas e estudos de caso, o objetivo é destacar as medidas e métricas que os agricultores usam, disse Thorson.
Reconhecemos que existe uma gama de iniciativas que focam em medir a agricultura regenerativa, mas, que não será a prioridade deste projeto. De fato, estamos mais interessados em encontrar os desafios associados a estas métricas e medidas, acrescentou.
“Trata-se de fazer um balanço de onde você está, da perspectiva da fazenda como um todo, pensando sobre qual direção você deseja ir. As métricas representam uma ajuda sobre o caminho a seguir e garantir que você está se movendo na direção certa, mas, no fundo, trata-se de mudança de mentalidade”, disse Thorson.
Produtores de leite regenerativos
Tom and Sophie Gregory, produtores de leite da Inglaterra, estão praticando o Regen Dairy. Produzem leite orgânico e fornecem para a Arla. Eles são produtores de leite há oito anos, sete deles na produção orgânica. Eles agora fazem parte do programa piloto da Arla, um projeto de quatro anos, com outros 24 produtores. O objetivo é dar feedback a outros agricultores. Eles criam 360 vacas em 900 acres.
“Temos todo tipo de solo. É um grande desafio, dependendo do clima. Nosso objetivo é deixar os animais soltos durante 9 meses do ano. Mas o maior objetivo é transformar pastagens em leite”, disse ela.
“O alerta ocorreu quando começamos ver que, embora fôssemos orgânicos, alguns dos índices das análises de solo não melhoravam. Talvez fosse preciso mudar algum dos métodos para o crescimento das pastagens e melhorar a saúde do solo”, disse Tom Gregory.
Foi isso que nos fez procurar abordagens diferentes e nos levou aos princípios da produção de leite regenerativa.
“Se você tem um campo compactado ou ‘faminto’, por que ele está assim? Vamos tentar resolver este problema olhando para o solo e trabalhando para descobrir as questões químicas, biológicas ou taxas de fungos/bactérias?”, pergunta Tom
“O objetivo é fazer pequenas mudanças”, disse Sophie.
Mudar o manejo no campo. Existem diferentes tipos de coberturas. Diferentes floras para diferentes faunas e é preciso mudar as espécies e ajudar a aumentar a infiltração. Mesmo um pequeno ajuste pode ajudar na jornada regenerativa, disse ela.
Perspectiva comercial
Jo Lawrence, que fornece suporte agro-comercial na Arla Foods, também se juntou à discussão.
“Na Arla, falamos sobre pessoas e planeta fortes. Realmente sentimos que as indústrias desempenham um papel fundamental nessa missão. E obviamente, falamos muito sobre os benefícios do leite para a saúde”, diz ela. "Penso que precisamos, realmente, usar esse movimento e momento com os agricultores em torno da regeneração para começar a coletar dados sobre as práticas e entregá-las aos clientes e consumidores para demonstrar que a produção de leite e nossas vacas proporcionam um impacto positivo para a natureza e o clima. Com os dados poderemos contar uma grande história”.
A Arla é uma cooperativa de propriedade de 10.000 agricultores, onde se fala bastante sobre a necessidade de transformar, e é por isso que é tão importante ter os agricultores no centro liderando o processo. Ainda assim, são empresas e precisam ganhar dinheiro. A abordagem da Arla sobre a produção de leite regenerativa deve estar alinhada com o suporte para que eles continuem sendo sustentáveis.
“É uma jornada, e todos os agricultores começam de posições diferentes e possuem contextos diversos. Não é uma coisa que se faz da noite para o dia. Podemos usar os dados para demonstrar que está havendo melhoria contínua, e através do compartilhamento com os clientes, incentivar os agricultores a dar o primeiro passo para iniciar sua própria jornada”, disse Lawrence.
“Penso que o primeiro desafio é o fato de não haver um plano. Não há uma forma de testar e comprovar...devido à complexidade da regeneração e ao fato de ser uma abordagem sistêmica”, disse ela. “Vamos tentar reunir o que já existe, o que está funcionando e começar a compartilhar esse conhecimento e quais medidas são significativas para os agricultores”.
Ela também observou que essa abordagem colaborativa através de toda a cadeia de suprimento é importante porque, em última instância, a indústria está tentando se alinhar ao que nos propomos a alcançar juntos. Não faria sentido para a Arla apresentar nossa própria abordagem do que é regenerativo, e depois outras empresas apresentarem as suas, porque do ponto de vista do agricultor, é preciso haver clareza”, disse Lawrence.
A indústria deve se alinhar para tomar decisões de longo prazo e dar aos agricultores a direção da viagem e não deixá-los preocupados, com a possibilidade de haver mudança repentina de rumo, concluiu ela.
















