China deve ter primeira queda de população em 60 anos e teme efeitos
População/China - A China deverá informar seu primeiro declínio populacional desde a catastrófica fome que acompanhou o Grande Salto para Frente, a desastrosa política econômica de Mao Tsé-tung do fim dos anos 50 que causou a morte de dezenas de milhões de pessoas.


A atual queda acontece apesar de um relaxamento das rígidas políticas de planejamento familiar, cujo objetivo foi reverter uma queda da taxa de natalidade na nação mais populosa do mundo.
O mais recente censo chinês, que foi concluído em dezembro mas cujos resultados ainda não foram divulgados, deverá mostrar a população total do país em menos de 1,4 bilhão, segundo fontes a par do estudo. Em 2019, a população da China foi anunciada como tendo superado a marca de 1,4 bilhão.
Mas as fontes alertaram que esse número é considerado muito sensível e não será anunciado até que vários órgãos do governo não chegarem a um consenso sobre a informação e suas implicações.
“Os resultados do censo terão um impacto enorme sobre a maneira como a população chinesa vê seu país e como funcionam os vários órgãos do governo”, diz Huang Wenzheng, sócio do Center for China and Globalization, um centro de estudos de Pequim.
O governo marcou a divulgação dos números do censo para o começo de abril. Liu Aihua, porta-voz da Agência Nacional de Estatísticas, disse em 16 de abril que o atraso se deveu em parte à necessidade de “um maior trabalho de preparação” antes do anúncio oficial. O atraso tem sido bastante criticado nas redes sociais.
As autoridades locais também se prepararam para o anúncio dos dados. Chen Longgan, vice-diretor da agência de estatísticas da província de Anhui, disse recentemente que as autoridades deveriam “definir a agenda” para a interpretação do censo e “prestar muita atenção à reação pública”.
Analistas disseram que uma queda sugeriria que a população da China poderá em breve ser superada pela da Índia, que é estimada em 1,38 bilhão. Uma queda na população poderia ter um custo grande para a segunda maior economia global, afetando do consumo aos cuidados com idosos.
“O ritmo e a escala da crise demográfica da China são maiores e mais acelerados do que imaginávamos”, afirmou Huang. “Isso poderá ter um impacto desastroso para o país.”
As taxas de nascimento da China caíram ainda mais depois que Pequim relaxou em 2015 sua política de planejamento, que durava décadas, permitindo a todos os casais terem dois filhos, em vez de só um. A população cresceu sob a política do filho único, implementada no fim da década de 70, graças à grande população de jovens após a revolução comunista, além do um aumento da expectativa de vida.
Acadêmicos independentes estimam que dezenas de milhões de pessoas morreram durante a fome do Grande Salto para Frente, entre 1959 e 1961, quando Mao ordenou que toda a nação produzisse aço em fornalhas de fundo de quintal e colheitas foram exportadas e armazenadas mesmo com milhões passando fome.
Mas o Partido Comunista ainda proíbe discussões detalhadas desse período, e a maior parte das informações publicamente disponíveis encobre o declínio da população naquela época. Números do governo mostram que a população caiu cerca de 13,5 milhões entre 1959 e 1961, embora acredite-se que esse número seja bastante subestimado.
Dados oficiais mostraram que o número de recém-nascidos na China aumentou em 2016, mas depois caiu por três anos seguidos. Autoridades atribuíram a queda à redução do número de mulheres jovens e à alta dos custos de criação dos filhos.
O quadro real pode ser ainda pior. Num relatório divulgado na semana passada, o banco central chinês estimou que a taxa total de fertilidade - o número médio de filhos que cada mulher terá em sua vida - foi de menos de 1,5, bem abaixo da estimativa oficial de 1,8.
“É quase um fato que a China superestimou sua taxa de natalidade”, disse o BC chinês. “Os desafios apresentados pela mudança demográfica da China podem ser maiores [que o esperado].”
Um assessor do governo em Pequim, que não quis ser identificado, disse que essa estimativa excessiva deriva em parte do uso fiscal dos números populacionais para determinar orçamentos, incluindo os da educação e segurança pública. “Há um incentivo para os governos locais manipularem seus números [populacionais], para assim receberem mais recursos.”
A situação vem levando a pedidos para uma reformulação radical das regras de controle da natalidade na China. O relatório do banco central sugeriu que o governo deveria abandonar “completamente” sua “atitude de esperar para ver” e acabar totalmente com o planejamento familiar. “O relaxamento de políticas será de pouca utilidade quando ninguém mais quiser ter filhos”, diz o estudo.
















