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Especiais Selectus nº 6121

Análise FAO do Mercado Mundial de Lácteos em 2020 – Parte III

Leite no mundo – Comércio Internacional de produtos lácteos selecionados. Análise do mercado de lácteos da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Fonte: Fonte: FAO – Tradução livre: www.terraviva.com.br | Foto de capa: CC Search BY 2.0
Análise FAO do Mercado Mundial de Lácteos em 2020 – Parte III

ANÁLISE DO MERCADO DE LÁCTEOS – Parte III

Visão sobre o desenvolvimento do mercado global de lácteos em 2020

FAO. 2021. Dairy Market Review: Overview of global dairy market developments in 2020, April 2021. Rome.

Tradução: www.terraviva.com.br

Comércio internacional de produtos lácteos selecionados

O comércio internacional de produtos lácteos, em 2020, registrou os seguintes aumentos: WMP (+1,9%); soro em pó (+8%); queijo (+4,1%) e outros produtos lácteos (+0,5%), compensando as reduções de SMP (-2,3%) e manteiga (-6%).

Análise FAO do Mercado Mundial de Lácteos em 2020 – Parte III

Manteiga

As exportações de manteiga caíram em decorrência da desaceleração econômica e aumento da produção doméstica entre países importadores

As exportações mundiais de manteiga contraíram 6% em 2020 para 935 milhões de toneladas, ao contrário dos 7% de crescimento ocorridos nos dois anos precedentes. O declínio generalizado foi reflexo da contração das importações em muitos países, incluindo México, Emirados Árabes Unidos, Indonésia, Japão e Filipinas, apesar do significativo aumento de compras pela China, Rússia, Arábia Saudita, Egito e Austrália. Em 2020, muitos países compraram menos manteiga do que em 2019, refletindo as crises econômicas, perdas de emprego e renda, redução de vendas para o exterior e substituição de produtos importados pela fabricação local de manteiga. Mais ainda, a necessidade de importação de manteiga caiu significativamente devido à redução das compras do canal de serviços de alimentação e de hotelaria, que foi compensada, apenas parcialmente, pelo setor de panificação e confeitaria.

Na China, a importação de manteiga tem aumentado nos últimos anos, impulsionada pela elevada demanda para elaboração de pratos ocidentais e produtos de panificação que usam mais manteiga, em meio ao lento crescimento da produção local. A rápida recuperação econômica após a suspensão das medidas de isolamento adotadas contra o Covid-19 também contribuiu para aumentar as compras de manteiga. A forte demanda e o fraco crescimento da produção local, resultaram no aumento das importações de manteiga pela Rússia, principalmente procedente da Bielorrússia, embora o ritmo de crescimento tenha caído quase pela metade devido a bloqueios de mercado, menor poder de compra e estoques acumulados. Houve recuperação da importação de manteiga pelo Egito e pela Arábia Saudita, em relação às quedas verificadas em 2019, como reflexo do aumento do consumo que ultrapassou a expansão das produções locais. Embora as interdições de movimentação e restrições a determinados mercados tenham reduzido as vendas aos canais de serviços de alimentação, a importação de manteiga pela Austrália aumentou, decorrente do forte aumento do consumo com o crescimento da preparação de alimentos em casa.

O declínio das importações de manteiga levou a menores embarques por exportadores líderes, incluindo Nova Zelândia, Índia, Ucrânia, Estados Unidos (EUA) e Austrália. As exportações de manteiga pela Nova Zelândia caíram, como reflexo da queda de importação de diversos parceiros comerciais, e foram compensadas, apenas parcialmente, por maiores compras, especialmente, da China, Rússia, Arábia Saudita e Egito. Acompanhando as recuperações de 2018 e 2019, as exportações de manteiga pela Índia voltaram à sua tendência histórica de queda, com a redução da demanda, principalmente do Oriente Médio, onde crises econômicas e emigração de uma considerável comunidade de expatriados reduziram as necessidades de manteiga. As exportações de manteiga pela Ucrânia caíram tanto quanto o comércio do país com parceiros tradicionais, incluindo Moldávia, Geórgia, União Europeia (UE) e Israel. As exportações de manteiga pelos EUA também declinaram como reflexo das menores importações pelo Canadá, México, Coréia, Colômbia e Japão.

As exportações de manteiga pela Austrália declinaram em linha com os cortes de importações de muitos parceiros tradicionais, especialmente Tailândia e Malásia, e mudança na grade de processamento do leite que favoreceu a produção de queijo e leite em pó integral (WMP) em detrimento de manteiga e leite em pó desnatado (SMP). As exportações de manteiga pela Austrália em 2020 foram afetadas pelas baixas importações pelos EUA dada à elevada produção nacional e queda na demanda interna.

Análise FAO do Mercado Mundial de Lácteos em 2020 – Parte III

A UE, Argentina e Bielorrússia forneceram a maior parte da expansão da demanda internacional de manteiga. Na UE, o crescimento no processamento de SMP levou ao aumento da produção de manteiga, adequada para atender a demanda de importação, impulsionada, principalmente, pelos EUA, Arábia Saudita, China e Egito. Enquanto isso, a demanda interna por manteiga permaneceu vigorosa, dada a ampla aceitação da manteiga por parte dos consumidores como um produto saudável e o aumento do uso na indústria de alimentos. Os embarques de manteiga pela Argentina e Bielorrússia cresceram, principalmente para a Rússia e países vizinhos. Para a Argentina, a depreciação do peso e a elevada inflação doméstica foram incentivos para as vendas no exterior. 

Queijo

As exportações de queijo tiveram expansão em 2020, sustentadas pela persistente demanda de mercados emergentes

O comércio internacional de queijos atingiu 2,8 milhões de toneladas em 2020, proporcionando um crescimento de 4,1%, pelo quinto ano consecutivo, sustentado pela contínua e sólida demanda importadora de diversos países, especialmente, Rússia, Iraque, China e Coreia. As importações contraíram nos EUA, Japão e México.

A Rússia aumentou as compras de queijo em 2020, com a Bielorrússia fornecendo a maior parte. Muito desse aumento foi decorrente do crescimento da demanda interna, depois da introdução obrigatória da certificação eletrônica pelo sistema “Mercury”, novo regulamento sobre rotulagem e remoção de queijos que não atendem os padrões estabelecidos, o que levou o consumidor a ter confiança nos produtos lácteos. As importações de queijo pela China continuaram crescendo, impulsionadas pelo aumento acentuado da demanda do setor de serviços de alimentação, panificação e restaurantes estilo ocidental. O fornecimento foi feito principalmente pela Nova Zelândia e pela UE. As importações de queijo pela Coréia do Sul cresceram pelo quarto ano consecutivo, impulsionado pelo aumento acentuado na demanda do consumidor por alimentos embalados contendo queijo, a ocidentalização de hábitos alimentares, e o crescimento da demanda por alimentos processados. Além disso, a redução tarifária e o aumento das cotas TRQ da Organização Mundial do Comércio (OMC) reduziram os preços dos queijos importados. Em muitos países, a redução da importação de queijo era o reflexo da combinação entre a alta produção nacional e redução do consumo diante da queda do poder de compra, o que atinge principalmente produtos com maior valor agregado, como os queijos.

As exportações de queijos pela UE, Irã e Bielorrússia cresceram, enquanto as do Egito, Nova Zelândia, Austrália e EUA registraram contração. Houve expansão das exportações da UE para o Japão, Suíça e Coreia. O aumento das disponibilidades exportáveis foi decorrente da canalização de mais leite para as fábricas de queijo, com o fechamento do setor de serviços de alimentação. O programa de ajuda ao estoque privado (PSA) da UE que permitiu a retirada temporária de queijos do mercado, também impulsionou a produção de queijo. A Bielorrússia continuou embarcando queijos para a Rússia, que passou a comprar grandes volumes. Muitos parceiros comerciais da Nova Zelândia reduziram as importações de queijo, com apenas alguns comprando mais em 2020, incluindo a China, Coréia do Sul, Malásia e Tailândia. As exportações de queijo da Austrália caíram, como reflexo de leve aumento no consumo interno e redução da demanda do Sudeste da Ásia. As exportações de queijo dos EUA declinaram, prejudicadas pela volatilidade dos preços domésticos dos queijos e baixa demanda de mercados chaves, especialmente México, que passa por uma crise econômica. No entanto, as exportações para outros destinos como a Coreia tiveram um desempenho melhor.

Análise FAO do Mercado Mundial de Lácteos em 2020 – Parte III

Leite em pó desnatado (SMP)

O comércio internacional de SMP caiu devido a cortes generalizados de importação

O comércio internacional de leite em pó desnatado (SMP) caiu 2,3% ficando em 2,5 milhões de toneladas em 2020, registrando o segundo ano consecutivo de declínio, refletindo reduções generalizadas de importação por muitos importadores, incluindo México, Rússia, Vietnã, Malásia, China, Tailândia, Egito e Bangladesh. As importações declinam consistentemente com as crises econômicas, interrupções do mercado e aumento das disponibilidades nacionais com a maior produção de SMP, devido a queda nas vendas de leite fresco para canais de serviços de alimentação. Além das questões relacionadas ao Covid-19, um conjunto de outros fatores influenciaram o desempenho do SMP em muitos países. Na Rússia, a produção de SMP aumentou, principalmente entre maio e agosto, com drástica redução das importações pelas indústrias de processamento de alimentos. Com aumento da produção doméstica e moderado crescimento da demanda doméstica, o México também usou o processamento local de SMP pelo setor de processamento de alimentos. No Vietnã, a demanda interna caiu, apesar da redução unilateral de tarifas dos produtos lácteos, do acesso preferencial obtido de diversos países parceiros com a assinatura do Tratado de Comércio Trans Pacífico (TPP), e do acordo de livre comércio UE-Vietnã. De outro lado, as importações de SMP persistiram na Argélia, Indonésia, Nigéria e Filipinas, uma vez que a produção doméstica foi insuficiente para atender à demanda interna, apesar das restrições estabelecidas pelo Covid-19 e as dificuldades associadas.

Como reflexo da redução da demanda internacional, as exportações da UE, Turquia, Nova Zelândia, Emirados Árabes Unidos, e Canadá caíram. Na UE, a pouca demanda do Sudeste Asiático foi um dos fatores mais significativos.

Muitos dos países fronteiriços da Turquia compraram menos SMP do que as médias históricas, com poucas transações comerciais e desaceleração econômica. As exportações de SMP pela Nova Zelândia declinaram, como reflexo principalmente das menores compras de países do Sudeste Asiático. Assim também ocorreu com as exportações de SMP dos Emirados Árabes Unidos, com redução do comércio com seus parceiros da região. As exportações de SMP do Canadá também declinaram, especialmente para os países do Norte da África como Argélia e Egito. Em sentido contrário, as exportações de SMP pelos EUA recuperaram o vigor, depois dos baixos volumes embarcados em 2019, com distribuição de remessas por diversos mercados asiáticos, diante dos preços competitivos e novos tratados de livre comércio (por exemplo, com o Vietnã) garantindo acesso a mercados com tarifas preferenciais.

Análise FAO do Mercado Mundial de Lácteos em 2020 – Parte III

Leite em pó integral (WMP)

Elevadas importações da região do Oriente Médio e Norte da África melhoraram o comércio internacional de WMP em 2020

O comércio internacional de WMP em 2020 foi estimado em 2,7 milhões de toneladas, registrando expansão de 1,9%, embora seja um crescimento menor que o registrado nos dois anos precedentes. A expansão do comércio de WMP em 2020 foi, principalmente, em decorrência do forte aumento registrado em diversos importadores líderes, como Arábia Saudita, Brasil, Argélia, Sudão, Omã, Austrália e Nigéria. Apesar disso, alguns poucos importadores líderes como China, Bangladesh, Malásia, Singapura, Cuba e Indonésia registraram queda nas compras. O Brasil importou mais WMP para atender à demanda nacional que ultrapassou o crescimento da produção local. A maior parte importada veio da Argentina, Uruguai e Paraguai. Apesar dos distúrbios provocados no mercado pelo Covid-19, as importações pela região chamada MENA (Oriente Médio e Norte da África) foram consistentemente elevadas até julho de 2020. No entanto, as importações mensais de WMP caíram para o menor volume em agosto de 2020, impactadas pela queda nos preços do petróleo e a emigração de uma grande proporção da comunidade de expatriados do Oriente Médio. Desde agosto, no entanto, houve aumento nas compras de WMP, em linha com a recuperação do preço do petróleo, com uma pronunciada lacuna nos volumes importados. Na China, elevados estoques e demanda fraca causaram o declínio das importações de WMP. Em Bangladesh, Cuba e Indonésia, a baixa demanda do setor de serviços de alimentação (hotéis, padarias e restaurantes), levaram ao declínio das importações, enquanto as dificuldades de transporte foram responsáveis pela contração das importações na Malásia e Singapura.

Análise FAO do Mercado Mundial de Lácteos em 2020 – Parte III

Olhando as exportações, Argentina, UE, Uruguai e Bielorrússia ofereceram a maior parte do aumento da demanda de WMP. Houve crescimento nas exportações de WMP pela Argentina, beneficiada pela forte demanda do Brasil e da Argélia. Com crise econômica e inflação alta, junto com a depreciação do peso, as exportações de WMP se tornaram uma opção atrativa para muitos exportadores, proporcionando margens lucrativas. Muitos dos embarques de WMP pela UE foram para a região MENA e China. Com aumento da produção e preços internacionais competitivos, o Uruguai conseguiu exportar mais WMP, especialmente para a Argélia, Brasil e China. Após uma concentração historicamente alta de exportação, a Bielorrússia despachou mais WMP para a Rússia. As exportações de WMP da Nova Zelândia, o maior exportador de WMP do mundo, com quase 55% de participação do mercado mundial, caíram marginalmente (-0,2%) diante de muitos cortes de importações.

Análise FAO do Mercado Mundial de Lácteos em 2020 – Parte III
Análise FAO do Mercado Mundial de Lácteos em 2020 – Parte III
Análise FAO do Mercado Mundial de Lácteos em 2020 – Parte III

>> Acesse aqui  - Análise FAO do Mercado Mundial de Lácteos em 2020 - Parte I

>> Acesse aqui - Análise FAO do Mercado Mundial de Lácteos em 2020 – Parte II 

 >> Acesse aqui o Relatório Original - Dairy Market Review

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