Leite muito além da vaca
Leite de vaca - Nos últimos anos, o leite de vaca esteve no centro de polêmicas. Seja por causa da presença da lactose, seu açúcar natural — responsável por provocar reações gastrointestinais em um grupo de pessoas —, seja em decorrência do potencial alergênico de suas proteínas.

A despeito disso, continuou firme e forte na rotina dos brasileiros. De acordo com o Anuário Leite 2020, publicado pela Embrapa Gado de Leite, a produção do alimento cresceu 139% entre 1990 e 2019, enquanto o consumo total disparou 131%. “Somos um dos maiores produtores do mundo”, informa o pesquisador Paulo do Carmo Martins, chefe-geral da instituição. Ainda assim, ele nota que o brasileiro consome 100 litros a menos por ano do que os europeus e os americanos, povos com grande tradição nesse aspecto. “Isso nos leva a imaginar que podemos crescer ainda mais”, acredita.
Mas há outros leites instigando o gosto dos consumidores, ainda que não sejam produzidos na escala da versão da vaca. Animais como cabra, ovelha e búfala também fornecem o alimento — e geram derivados valiosos, como queijos e iogurtes. Agora, uma fatia que nitidamente não para de aumentar é a de pessoas interessadas na bebida de origem vegetal. Se há alguns anos elas só contavam com opções à base de soja como alternativa ao produto da vaca, hoje o céu é o limite. A cada mês surge uma novidade nas gôndolas. Aqui, vale um adendo: recorrer ao termo “leite vegetal” para se referir a essa categoria está errado. Afinal, só pode ser denominado leite aquilo que vem das glândulas mamárias de fêmeas mamíferas. Não é o caso de uma bebida de amêndoas, por exemplo.
Antes de explorarmos esse universo paralelo, cabe ressaltar que não há nenhum problema em tomar o leite da vaca — a não ser que ele dispare reações indesejáveis no organismo ou não agrade seu paladar. Inclusive, usar o argumento de que o homem é o único mamífero que segue tomando o líquido depois de adulto é algo que já deveria ter sido abolido. “Essa frase pode ser empregada para uma infinidade de coisas”, aponta Desire Coelho, nutricionista que atua nas áreas esportiva e comportamental na capital paulista. “Na verdade, o consumo na idade adulta parece fazer parte de um processo de evolução da espécie humana depois que ela deixou de ser nômade e passou a domesticar os animais”, ensina a especialista, que também é coautora dos livros A Dieta Ideal (clique aqui para comprar) e Alimentação Saudável: Perguntas e Respostas ao Sabor da Ciência (clique aqui para comprar).
No início de 2021, um trabalho do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, na Alemanha, identificou a presença de proteínas lácteas em dentes de fósseis de 6 mil anos encontrados na região nordeste do continente africano. Mais uma prova de que, com a domesticação dos bichos e a ingestão contínua de leite, o organismo do homem se ajustou. “Ele desenvolveu uma adaptabilidade genética denominada pelos cientistas de persistência da lactase, possibilitando que o consumo do alimento não causasse intolerâncias”, relata a nutricionista Kelly Ferreira dos Santos, professora da Universidade São Francisco (USF), em Campinas e Bragança Paulista, no interior de São Paulo.
No fim das contas, as outras espécies só não bebem leite após a fase adulta porque não evoluíram a ponto de conseguir fabricar lactase, que é a enzima responsável pela quebra da lactose — o principal carboidrato do alimento. Sem ela, a digestão do nutriente fica penosa, levando a sintomas como dor de barriga, gases e diarreia. De qualquer forma, o nível de produção da enzima varia entre as populações e os indivíduos. Daí por que alguns se dão melhor com dois copos de leite do que outros. “Cada um precisa descobrir a dose que tolera”, afirma Desire. “Se consumir pouco e tiver muitos sintomas, vale acompanhar”, sugere. Mas driblar os efeitos inconvenientes não é complexo. Hoje, o mercado anda cheio de produtos sem lactose. Sem falar que a enzima lactase é vendida na farmácia.
A alergia ao leite é outro papo. Ela é provocada por proteínas e costuma dar as caras na primeira infância. “A situação está mais frequente, com quadros mais graves e persistentes”, diz a médica Jackeline Motta Franco, coordenadora do Departamento Científico de Alergia Alimentar da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai). Os sintomas incluem vômito, sangue nas fezes e diarreia. Inchaço na boca, urticária e desconforto respiratório também denunciam o problema. Se confirmada a alergia e o bebê estiver sendo amamentado (o ideal até os 2 anos), leite e derivados saem da dieta materna. Caso ele use fórmula, aí tipos especiais devem entrar em cena. O leite em si não pode ser dado à criança antes de 1 ano.
A boa notícia é que a situação tende a se resolver sozinha e ainda na infância. Como isso pode ocorrer a qualquer momento, Jackeline aponta que é essencial levar a criança para avaliações médicas periódicas. “A reintrodução é desejada não só por vantagens nutricionais como também psicológicas”, argumenta. Afinal, não é fácil evitar um item tão popular quanto o leite.
Embora o leite de vaca seja reconhecido por suas proteínas de alto valor biológico — consideradas completas —, o nutriente mais crítico para a molecada é o cálcio, que auxilia na formação do esqueleto. “Nós fabricamos osso até os 20 anos”, ressalta a pediatra Elza Daniel de Mello, membro do Departamento Científico de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). É comum ouvir que os vegetais verde-escuros também são ricos no mineral. Mas Elza pondera que esses alimentos costumam ser boas fontes para os adultos — que já estão com a massa óssea feita. Para a criança, o melhor reduto é o leite mesmo.
PERFIL DO LEITE DE VACA
A nutricionista Kelly Ferreira dos Santos, da Universidade São Francisco, informa que ele é fonte de proteínas, carboidratos — olha a lactose aí! — e cálcio. “Apresenta ainda vitaminas A, D, E e K, além de gorduras saturadas e insaturadas”, cita. “Para quem tolera, é um alimento ótimo”, avalia sua colega Desire Coelho.
Se na infância ele tem papel relevante na construção dos ossos, já que é exímio reduto de cálcio, na velhice ganha mais valor devido ao conteúdo de proteínas, essenciais aos músculos. “Com o passar do tempo, a necessidade desse nutriente aumenta, mas os idosos tendem a consumir menos”, comenta Desire. Aí é legal caprichar no café com leite, no mingau e nas vitaminas. Se possível, a nutricionista sugere optar pela bebida que tenha sido envasada na própria fazenda. “Quanto menos intermediários, melhor”, justifica. Uma checada no rótulo ajuda nessa identificação.
O que tem no copo
Os nutrientes que você ganha ao mantê-lo na rotina:
Cálcio
O mineral dos ossos fortes é o maior trunfo. Em um copo de 240 ml, são 257 mg do nutriente. Um adulto precisa ingerir 1 000 mg ao dia.
Proteínas
Elas são de alto valor biológico, isto é, nos proporcionam todos os aminoácidos necessários. São 7 g em um copo de 240 ml.
Gordura saturada
Varia entre o integral, semi e desnatado. Ela dá saciedade, mas o abuso não é bacana. A indicação do melhor tipo é individual.
Vitamina D
Também auxilia na manutenção do esqueleto. Está sobretudo no leite integral, com mais gordura.
Lactose
É seu açúcar natural. Em algumas pessoas, causa chabus na digestão. Mas há produtos isentos desse carboidrato.
Novidades do setor
O mercado é tímido, mas há leites com diferenciais que vão além do teor de gordura ou lactose:
Orgânico
O sistema de produção envolve uma série de regras, como pastagem livre de fertilizantes e agrotóxicos, além de troca de remédios veterinários alopáticos por formulações homeopáticas ou fitoterápicas. Segundo Paulo Martins, chefe-geral da Embrapa Gado de Leite, a produção é cara, o que reflete no preço do produto na gôndola. Logo, provavelmente seguirá como uma opção de nicho.
A2
Este, sim, tem potencial de expansão. As vacas só produzem proteínas do tipo beta-caseína A2 — e não A1 e A2, como de costume. “A A1 é ligada à formação de substâncias inflamatórias”, explica o gastroenterologista Clovis Kuwahara, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Em certas pessoas, a má digestão pode vir disso. Daí a vantagem do A2. Não tem a ver com alergia, tá?
Como criar vacas felizes
Há várias formas de fazer isso. Uma proposta em alta se baseia no sistema chamado compost barn. Basicamente, as vacas ficam soltas em um galpão (fechado ou aberto), com serragem no chão e temperatura agradável. Também há monitoramento de sono, batimentos cardíacos, e por aí vai. A ideia é apostar em uma abordagem personalizada para cada animal — e não em algo para o rebanho inteiro. “Com esses cuidados, notamos duas coisas: aumento de produção natural de leite e menos problemas de saúde”, informa Martins.
















