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Especiais Selectus nº 6050

Tecnologia contribui para gestão hídrica na propriedade leiteira

Gestão Hídrica - A água é fundamental para a sobrevivência do nosso planeta. Muito se fala em processos produtivos sustentáveis para a preservação do meio ambiente e, na pecuária, a gestão dos recursos hídricos nas propriedades rurais deve ser pensada como um todo.

Fonte: Fonte: AJAGRO / Foto de capa: Divulgação/AJAGRO
Tecnologia contribui para gestão hídrica na propriedade leiteira

Vale ressaltar que a cada litro de leite produzido, a vaca ingere de 4 a 5 litros de água. Então para a produção, por exemplo, de 30 litros de leite, serão consumidos, no mínimo, 120 litros de água pura.

Segundo o engenheiro  agrícola e consultor Andrew Jones, também deve ser levado em consideração pelo produtor o volume de água necessário para lavar cada conjunto de ordenha (8 a 10 litros por conjunto), para lavar  um tanque de resfriamento de leite (1% a 2% do volume do tanque). A cloração da água no meio rural também deve obedecer aos padrões de potabilidade  e qualidade estabelecidos por portaria do Ministério da Saúde. Água potável significa consumo seguro e consciente, que não oferece riscos à saúde. “A água que limpa o equipamento de ordenha, o resfriador, e que o gado bebe, deve ser a mesma consumida pelos humanos, ou seja, de ótima qualidade”, explica.

Por seis anos, Jones gerenciou uma fazenda de pecuária de leite no município de Bom Conselho do Papacaça (PE), e vê a questão do manejo hídrico como de fundamental importância. Lembra que a média anual de chuva naquela região é de 400 mm e mal distribuída. “Entre os meses de maio a agosto, chegamos a perfurar na propriedade três poços semi-artesianos e não obtivemos sucesso, pois o volume de água era baixo e com alto teor de sal”, conta.

Jones, que é diretor da AJAGRO, empresa de consultoria especializada em pecuária leiteira, lembra que para conseguir manter a fazenda em operação, eram comprados caminhões pipa. “Esta é uma despesa que nós gaúchos não temos em nossas planilhas de custo de produção. Quando se vive esta realidade de escassez extrema de água é que aprendemos a dar valor aos recursos hídricos e a manejar melhor a água”, observa.

O processo de gestão da água dentro das fazendas, conforme Jones, deve ser iniciado pelo campo com a manutenção de nascentes, rios, córregos, enfim toda a água existente no local. “Deve ser feita a proteção de minadouros (olho d’água que brota do subsolo), não deixando animais ou máquinas ter acesso à eles, e da mata ciliar, sempre mantendo alguns metros de proteção com mato nativo nas margens de rios ou córregos”, ensina, colocando ainda como muito importante a realização de manutenção das barragens, ou seja, taludes, sangrador, etc.

Programas governamentais como o Microbacias, no Estado de São Paulo, também são bem vindos. De acordo com Jones, este programa melhorou as estradas de terra no interior paulista por meio da construção de caixas de contenção de água de chuvas ao longo das mesmas, acumulando esta água dentro das propriedades.

O segundo passo para uma gestão hídrica bem feita é otimizar ao máximo o uso da água para limpeza de equipamentos e pisos das instalações de pecuária leiteira. “Por aí passa um projeto bem elaborado onde se tenha menos pisos para limpeza diária, equipamentos com correta orientação de consumo de água para limpeza, destinação de toda esta água de forma correta. E quando possível ela deve ser reaproveitada (flushing), fazendo a coleta de água de chuva do telhado dos galpões”, orienta Jones.

Tecnologia contribui para gestão hídrica na propriedade leiteira
Imagem: Divulgação/AJAGRO
Tecnologia contribui para gestão hídrica na propriedade leiteira
Imagem: Divulgação/AJAGRO

As imagens ilustram tecnologias voltadas para o conforto animal: mais à esquerda, sistema de resfriamento dos animais por aspersão no pasto e, abaixo, bebedouros carrapatos que acompanham as vacas quando elas mudam de piquete.

O consultor destaca ainda que a água é um meio de cultura, portanto, o excesso de água em lavagens de piso, cria um ambiente propício para focos de contaminação ambiental. “E não menos importante, é bom citar a necessidade de clorador de água para consumo humano, animal e na limpeza dos equipamentos de ordenha. Análise de água anual também é uma boa dica”, sinaliza.

INVESTIMENTO E NOVAS TECNOLOGIAS

O diretor da AJAGRO tem a opinião de que todo o investimento a ser feito em uma propriedade precisa ser avaliado em termos de qual o momento certo de ser aplicado e quanto de retorno dará para a atividade desenvolvida. “No caso da água não é diferente, cada propriedade tem a sua realidade, então vale a pena mensurar, fazer as contas”, explica. Ressaltando que as novas tecnologias também devem passar por uma análise de viabilidade econômica. “Mesmo não sendo muito novas, estão em pauta a geração de energia via biogás gerado dos efluentes de limpeza, irrigação por microgotejamento, equipamentos de limpeza de tanque e ordenha automáticos, entre outros”, salienta.

Para o conforto animal, é preciso utilizar muita água. Com o objetivo de amenizar o estresse térmico no período de verão, várias técnicas têm sido utilizadas, tais como: resfriamento por aspersão na sala de espera antes da ordenha, resfriamento por aspersão da pista de trato em sistemas de gado confinado, e, quando a propriedade possui irrigação por pivô central, coloca-se sob a estrutura um sistema de resfriamento por aspersão das vacas a pasto.

Outra tecnologia mencionada pelo consultor é o bebedouro carrapato que serve para ir acompanhando o gado quando este muda de piquetes, facilitando a sua proximidade com a água. “Em propriedades que não possuem açudes ou rios próximos, existem várias opções para fazer a água chegar até o local, como perfuração de poços semiartesianos, cisternas para captação da água da chuva e construção de barragens, mas a escolha depende de uma análise local”, observa Jones.

MAIS RENDA E PRODUTIVIDADE

É correto dizer que uma melhor gestão da água também irá contribuir para melhorar a produtividade e a renda do produtor. “Muitos dos ganhos são indiretos, tais como: aumento da produtividade agrícola, suporte a períodos de escassez de chuvas, sanidade humana, dos animais e maior qualidade do leite produzido, redução no consumo de fármacos, redução no consumo de energia elétrica, aumento da lotação/produção, quando água é o fator limitante, entre outros”, afirma o diretor da AJAGRO. 

“Por fim, acredito que o manejo de água no meio rural é não só um interesse do proprietário, mas também um interesse de estado, por isso, acredito que esses investimentos feitos nas propriedades devem ser beneficiados com recursos amplos por meio de programas governamentais”, finaliza.

Tecnologia contribui para gestão hídrica na propriedade leiteira
Andrew Jones - Engenheiro agrícola, consultor e diretor da AJAGRO.
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