Alimentos, commodities e corte de custos salvam lucro na pandemia
Lucro na pandemia - Os ganhos expressivos das empresas ligadas aos setores de commodities e alimentos compensaram, de longe, o impacto da pandemia nos resultados do terceiro trimestre no grupo das companhias brasileiras com ações negociadas em bolsa.

Os números que vieram a público nas últimas semanas mostram um avanço surpreendente nos principais indicadores de resultados, mesmo com as restrições sociais, e seus reflexos na economia, impostas pelo avanço do novo coronavírus.

Com aumento da receita e o controle de custos, elas tiveram um desempenho não só melhor do que o do segundo trimestre - o auge da crise sanitária, com fechamento do comércio e das fábricas -, mas superior ao do mesmo período de 2019, pré-pandemia. Lucro cresceu 20% no terceiro trimestre, impulsionado por aumento das vendas e redução de custos Em um ano tão difícil como 2020, porém, não há muito para comemorar. Já há uma preocupação com alta de preços, falta de matéria-prima e a possibilidade uma segunda onda da doença, o que pode ter impactos relevantes nos resultados do quarto trimestre e dos primeiros meses de 2021. Também não está claro, até agora, quais serão os efeitos do fim dos programas emergenciais do governo federal. O levantamento do Valor Data feito a partir das demonstrações contábeis de 318 companhias não financeiras mostra que no terceiro trimestre o lucro líquido cresceu 20%, na comparação anual. O avanço foi impulsionado pela receita, que cresceu 11%, em ritmo mais acelerado que os custos, que aumentaram 7,6%. Como consequência, o lucro operacional, medido antes do pagamento de juros e imposto de renda (além dos efeitos cambiais sobre as dívidas), teve alta de quase 30% no período.
A melhora reflete a recuperação da demanda, que ocorreu mais rápido que o esperado, sendo aproveitada pelas empresas que se movimentaram ainda no segundo trimestre para reduzir custos e despesas. “Mais eficientes e com a lição de casa feita, as companhias conseguiram reverter o cenário ruim visto nos meses anteriores”, diz Victor Penna, gerente de pesquisa e análise de empresas do BB Investimentos. Renegociação de contratos com fornecedores, o enxugamento do quadro de funcionários e a adesão às medidas do governo para redução de salários ajudaram as empresas na diluição dos custos e na melhora da margem bruta (o que sobra da receita depois de descontados os custos), que passou de 29,8% para 32,4%, na comparação anual. O aumento do lucro foi puxado pelas empresas ligadas ao mercado doméstico, como as do setor de construção e de alimentos e pelas mineradoras e siderúrgicas, que ganharam com o aumento dos preços de seus produtos e a desvalorização do real frente ao dólar. As companhias mais atingidas pela pandemia, como as de varejo de moda tiveram uma melhora de desempenho em comparação ao segundo trimestre, com a flexibilização das medidas de distanciamento social, mas ainda aquém do visto um ano antes. As aéreas, do mesmo modo, tiveram pior desempenho na comparação anual.
O ponto positivo, segundo Penna, é que, ainda que de forma lenta e gradual, elas parecem ter encontrado o caminho da recuperação. “Vimos no terceiro trimestre uma estratégia forte de fortalecimento de caixa, com a postergação de pagamentos”, afirma o analista. Mas não é tarefa simples manter a gestão nos trilhos num ambiente ainda conturbado pela pandemia e o dilema fiscal do governo. O fim do pagamento do auxílio emergencial, previsto para dezembro, é uma grande interrogação. “A dúvida é sobre como será essa transição após o fim do auxílio”, diz Daniel Gewehr, estrategista-chefe de ações do Santander. Para ele, além das companhias de consumo, que certamente sentirão os efeitos do menor ímpeto consumidor o fim dos pagamentos mensais pode ter algum impacto na siderurgia, caso haja desaceleração no varejo de construção civil.
Por Rita Azevedo — De São Paulo
Foto da capa: Pixabay
















