Porque a recessão global pode durar um longo tempo?
Recessão – O mundo está mergulhando em uma recessão devastadora provocada pela pandemia de coronavírus.
Agora, crescem os temores de que a desaceleração possa ser muito mais devastadora e prolongada do que se temia inicialmente - potencialmente duradoura até o próximo ano e até mais além - à medida que os governos intensificam restrições aos negócios para impedir a propagação da pandemia e o medo do vírus reconfigura o próprio conceito de espaço público, impedindo o crescimento econômico liderado pelo consumidor.
A pandemia é acima de tudo uma emergência de saúde pública. Enquanto a interação humana permanecer perigosa, os negócios não poderão retornar ao normal com responsabilidade. E o que era normal antes pode não ser mais. As pessoas podem estar menos inclinadas a entrar em restaurantes e salas de concerto lotados, mesmo depois que o vírus for contido.
A interrupção abrupta da atividade comercial ameaça impor uma dor econômica tão profunda e duradoura em todas as regiões do mundo, ao mesmo tempo que a recuperação pode levar anos. As perdas para as empresas, muitas já saturadas com dívidas, correm o risco de desencadear uma crise financeira de proporções cataclísmicas.

Uma fila para pegar cupons de alimentação em Barcelona, Espanha, na segunda-feira. Samuel Aranda para o New York Times
"Sinto que a crise financeira de 2008 foi apenas uma árdua etapa para isso", disse Kenneth S. Rogoff, economista de Harvard e co-autor do livro de histórias de crises financeiras: "This Time Is Different: Eight Centuries of Financial Folly [Desta vez é diferente: Oito séculos de loucura financeira]".
"Isso está se configurando como o mergulho mais profundo já registrado na economia global em mais de 100 anos", disse ele. "Tudo depende de quão longo será, e se persistir por muito tempo, certamente será a mãe de todas as crises financeiras".
A situação parece particularmente grave nas regiões em desenvolvimento, onde os países viram uma acelerada saída dos investimentos este ano e as moedas derretendo. Isso força as pessoas a pagarem mais pelos alimentos e combustíveis importados, ameaça de insolvência os governos nacionais – enquanto, simultaneamente a pandemia sobrecarrega os já insuficientes sistemas de saúde.
Entre os investidores, um cenário de esperança mantém a moeda: a recessão será dolorosa, mas de curta duração, dando lugar a uma recuperação robusta este ano. A economia global está temporariamente congelada, segundo a lógica. Uma vez contido o vírus, permitindo que as pessoas retornem aos escritórios e shopping centers, a vida voltará ao normal. Os jatos se encherão com as famílias que irão para as férias adiadas. As fábricas voltarão ao trabalho, ocupadas em atender os pedidos.
Mas mesmo depois que o vírus for controlado - e ninguém sabe realmente quando será -, o mundo que surgir possivelmente estará sufocado em problemas, e enfrentará grandes desafios para a recuperação. O desemprego em massa exige custos sociais. A insolvência generalizada deixará a indústria debilitada, esgotando investimentos e inovações.

Trafalgar Square em Londres (27/03/2020). Andrew Testa para o New York Times
As famílias podem continuar desinquietas e avessas ao risco, tornando-as propensas a economizar. Algumas medidas de distanciamento social podem permanecer indefinidamente. Os gastos dos consumidores representam cerca de dois terços da atividade econômica em todo o mundo. Se a ansiedade persistir e as pessoas relutarem em gastar, a expansão será limitada - especialmente porque a vigilância contínua contra o coronavírus pode ser necessária por anos.
"A psicologia não será recuperada", disse Charles Dumas, economista-chefe da TS Lombard, uma empresa de pesquisa de investimentos em Londres. “As pessoas tiveram um choque real. A recuperação será lenta e certos padrões de comportamento estão mudando, se não para sempre, pelo menos por um longo tempo.”
A elevação das cotações, nos últimos anos, nos Estados Unidos impulsionou os gastos. Milhões de pessoas estão agora entrando com pedidos de seguro de desemprego, enquanto famílias mais abastadas absorvem a realidade de economias com aposentadorias substancialmente menores.
Os norte-americanos aumentaram significativamente suas economias depois dos anos da Grande Depressão. O medo e os créditos sem transparência limitaram a confiança nos empréstimos. Isso pode acontecer novamente.

O tráfego intenso voltando novamente a Pequim (17/03/2020). Giulia Marchi para o New York Times
“A perda de renda na frente do trabalho é tremenda", disse Dumas. "A perda de valor no efeito riqueza também é muito forte."
A sensação de alarme é reforçada pelo fato de que cada parte habitada do globo está agora em apuros.
Os Estados Unidos, a maior economia do mundo, quase certamente, estarão em recessão. O mesmo acontece com a Europa. E também, provavelmente com economias significativas como Canadá, Japão, Coréia do Sul, Cingapura, Brasil, Argentina e México. A China, a segunda maior economia do mundo, deve crescer apenas 2% este ano, segundo a empresa de pesquisa TS Lombard.
Durante anos, um segmento da economia ortodoxa defendeu a noção de que a globalização vinha com uma apólice de seguro integrada contra desastres coletivos. Enquanto alguma parte da economia mundial estava crescendo, isso supostamente moderava o impacto de uma desaceleração em qualquer outro país.

Porto de Sydney e a Ópera House de Sydney, Austrália (26/03/2020). Mathew Abbott para o New York Times
A recessão global que se seguiu à crise financeira de 2008 destruiu essa tese.
A crise atual apresenta um evento ainda mais extremo - uma emergência mundial que não deixou refúgio.
Quando a pandemia surgiu, inicialmente, na China Central, foi vista como uma ameaça substancial a essa economia. Mesmo quando a China se fechou, a tradicional sagacidade sustentava que, na pior das hipóteses, grandes empresas internacionais como Apple e General Motors perderiam vendas para os consumidores chineses, enquanto outros países lutavam para conseguir peças fabricadas na China.
Mas então a pandemia se espalhou pela Itália e, eventualmente, por toda a Europa, ameaçando fábricas no continente. Depois vieram políticas governamentais que essencialmente bloquearam a vida moderna, incluindo os negócios, enquanto o vírus se propagava pelos Estados Unidos.
"Agora, qualquer lugar da economia global que você olhe verá impactos na demanda doméstica e nas cadeias de suprimentos", disse Innes McFee, diretor-gerente de serviços de macro e investidor da Oxford Economics em Londres. "É incrivelmente preocupante."

Dumbo Brooklyn, Nova York, Estados Unidos da América (28/03/2020). Victor J. Blue para o New York Times
A Oxford Economics estima que a economia global se contrairá marginalmente este ano, antes de melhorar em junho. Mas essa visão provavelmente será revista drasticamente, disse McFee.
Trilhões de dólares em garantias de crédito e empréstimos concedidos por bancos centrais e governos nos Estados Unidos e Europa talvez tenham amortecido as economias mais desenvolvidas. Isso pode impedir a falência de um grande número de negócios, dizem os economistas, garantindo, ao mesmo tempo, que os trabalhadores não percam seus empregos e paguem suas contas em dia.
"Estou apegado à noção de que se trata de uma crise temporária", disse Marie Owens Thomsen, economista-chefe global da Indosuez Wealth Management, em Genebra. "Você aperta o botão de pausa e, em seguida, aperta o botão Iniciar, e a máquina começa a funcionar novamente."
Mas isso depende dos pacotes de resgate serem eficazes – e não há certeza disso. Em choques econômicos típicos, os governos gastam dinheiro para tentar incentivar as pessoas a sair e gastar. Nesta crise, as autoridades estão exigindo que as pessoas fiquem dentro de casa para limitar o vírus.
"Quanto mais tempo isso durar, maior a probabilidade de destruição da capacidade produtiva", disse Owens Thomsen. "Então, a natureza da crise muda de temporária para algo um pouco mais duradouro."
Em todo o mundo, o investimento estrangeiro direto está a caminho de declinar 40% este ano, de acordo com a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento. Isso ameaça "danos duradouros às redes globais de produção e cadeias de suprimentos", disse o diretor de investimentos e empresas do órgão, James Zhan.
“Provavelmente levará de dois a três anos para que a maioria das economias retornem aos níveis de antes da pandemia”, disse recente nota da IHS Markit.
Nos países em desenvolvimento, as consequência são mais graves. Não apenas os capitais estão fugindo, mas existe o mergulho dos preços das commodities – especialmente o petróleo – que estão afundando muitos países, entre eles o México, o Chile e a Nigéria. A desaceleração da China está reverberando nos países que fornecem componentes para as fábricas chinesas, da Indonésia à Coreia do Sul.

Fábrica da Honda de Dongfeng em Wuhan, China (23/03/2020). Agência France-Presse – Getty Images
Entre agora e o fim do próximo ano, os países em desenvolvimento terão que pagar 2,7 trilhões em dívidas, de acordo com o relatório divulgado pelo órgão comercial das Nações Unidas. Em tempos normais, eles poderiam se dar ao luxo de rolar a maior parte dessa dívida com novos empréstimos. Mas, o êxodo abrupto do dinheiro levou os investidores a cobrarem taxas de juros mais altas para novos empréstimos.
As Nações Unidas pediu um socorro de US$ 2,5 trilhões para os países em desenvolvimento – US$ 1 trilhão em empréstimos do Fundo Monetário Internacional, outro US$ 1 trilhão em perdão de dívidas de uma ampla gama de credores e US$ 500 milhões para recuperação da saúde.
“O grande medo que temos em relação aos países em desenvolvimento é de que o choque econômico pode ter começado antes do começo do choque sanitário ocorrer”, disse Richard Kozul-Wright, diretor da divisão de globalização e desenvolvimento de estratégias da ONU em Genebra.

Barbearia esperando clientes em São Paulo, Brasil (20/03/2020). Victor Moriyama para o New York Times
Em uma visão mais otimista, a solução já está em andamento. A China conteve, efetivamente, o vírus e começa voltar ao trabalho, embora gradualmente. Se as fábricas chinesas voltarem à vida na primavera, isso se espalhará para o mundo, gerando demanda por chips de computadores feitos em Taiwan, cobre extraído em Zâmbia e soja cultivada na Argentina.
Mas, as indústrias da China não estão imunes à realidade global. Os consumidores chineses são uma força poderosa, mas, não podem estimular uma recuperação completa. Se os norte-americanos estão ainda lutando com a pandemia, se a África dos Sul não pode pedir empréstimo no mercado mundial e se a Europa estiver em recessão, o apetite pelos produtos chineses será limitado.
“Se as fábricas chinesas voltarem, quem serão exatamente os compradores?” pergunta Rogof. “Como pode o crescimento global não levar um golpe de longo prazo?”
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