Já temos 371 plantas de biogás na pecuária do Brasil mitigando emissões de carbono e gerando energia
Biodigestores - Em 10 anos, a pecuária brasileira mitigou 57 vezes mais emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) pelo tratamento de dejetos animais no Brasil que a meta estipulada em 2010 pelo Plano ABC. Grande parte desse resultado é proveniente do uso energético do biogás proveniente de biodigestores, que em 2019 chegaram a 371 instalados em todo o país na suinocultura e bovinocultura.
Esses são alguns dos resultados do levantamento que eu e a colega Gladis Backes Bühring realizamos para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), com a coordenação de Sidney Almeida Filgueira de Medeiros, Fernanda Garcia Sampaio e Eleneide Doff Sotta, e em parceria com a equipe do CIBiogás.
O diagnóstico sobre mitigação de emissões de GEE da pecuária brasileira
Os resultados apresentados impressionaram a todos, devido ao crescimento do uso de sistemas de tratamento de dejetos que mitigam emissões de GEE, especialmente os biodigestores com uso energético do biogás. O MAPA inclusive publicou uma notícia divulgando os resultados com a motivadora manchete: Brasil supera metas na pecuária sustentável com aproveitamento de dejetos animais.
A metodologia aplicada e os resultados detalhados estão disponíveis para download gratuito em uma Nota Técnica, incluindo tabelas e mapas. Também é possível acessar os dados no TDA-Map, sistema webmap que permite visualização dinâmica dos dados em um mapa e geração de relatórios por meio de filtros, o qual foi desenvolvido pelo CIBiogás.
Mais biodigestores gerando biogás e energia no Brasil
Mas nesse artigo quero destacar os dados sobre biodigestores na suinocultura e bovinocultura do Brasil que podem ser muito úteis para o setor de biogás, pois referem-se apenas às propriedades que aproveitam o biogás para gerar energia elétrica ou térmica ou para produzir biometano.

Segundo os dados levantados, em 2017 havia 172 sistemas de biodigestão produzindo cerca de 82 milhões metros cúbicos de biogás por ano na suinocultura e bovinocultura do país. Já em 2019 havia 371 sistemas produzindo 182 milhões metros cúbicos de biogás por ano. Isso representou um crescimento do setor de 2,2 vezes em quantidade de plantas e também em volume de biogás em apenas 2 anos. No gráfico ao lado é possível ver o avanço na quantidade de biodigestores desde 2003.
Imagino que talvez algumas pessoas dirão que, comparado ao potencial total de produção de biogás do país (84,6 bilhões de metros cúbicos de biogás por ano, segundo a ABiogás), esses valores parecem ainda muito pequenos. Porém, se considerarmos que, em 2019, podem ter gerado cerca de 254 GWh de energia a partir de efluentes de suínos e bovinos, os números passam a ser importantes.
Além disso, como falamos na Nota Técnica elaborado para o MAPA, a biodigestão com uso energético do biogás é um sistema de tratamento de dejetos que gera muito benefícios adicionais ao tratamento em si, como a geração de energia elétrica e térmica renovável e substituição de fontes fósseis, a substituição de fertilizantes químicos e a melhoria da renda dos produtores através da redução de custos e/ou aumento de receitas.
E onde estão esses biodigestores?

Os dados indicam que a maior parte dos biodigestores na pecuária está localizada em Minas Gerais (44%) e em segundo lugar fica o estado do Paraná com 17% do total do Brasil. No mapa ao lado é possível ver a distribuição no Brasil (quanto mais escuro, maior a concentração de biodigestores).
Já quando observamos o volume de biogás produzido por esses biodigestores (gráfico abaixo), o estado de Minas Gerais reduz um pouco sua fatia, ficando com 36% do total e Mato Grosso, com 25%, ultrapassa o Paraná. Apesar do mato Grosso ter menos propriedades com biodigestores, o porte de produção de suínos ou bovinos no estado é maior, possibilitando a instalação de biodigestores maiores.

Segundo algumas análises do setor e conversa com especialistas, a produção de biogás de Minas cresceu junto com todo o setor de Geração Distribuída do Estado, devido a condições econômicas (tarifa, isenção de ICMS etc.) e do setor elétrico que vem viabilizando essa modalidade de geração com mais força e velocidade que em outros estados.
Além disso, a existência de linhas de financiamento adequadas para essas tecnologias sustentáveis, como Programa ABC, InovaAgro e Pronaf, foram muito importantes para o crescimento em todo o Brasil. Segundo dados do diagnóstico do MAPA, grande parte dos sistemas de tratamento são financiados com recursos públicos.
Isso tudo demonstra que políticas públicas como o Plano Agricultura de Baixo Carbono e a Resolução Aneel para Geração Distribuída, podem criar condições para tecnologias sustentáveis se tornarem atrativas e, pouco a pouco, alcançarem viabilidade econômica sem demandar mais os incentivos.
O biogás como fonte de energia tem a vantagem de ser armazenável, flexível e adaptável à demanda de energia do local onde é produzido (energia elétrica, calor ou biometano). Tem viabilidade e seu uso vem crescendo em pequena e grande escala, como o estudo demonstra, e de forma distribuída no interior do país. Isso possibilita que a energia passe de custo para possibilidade de receita na cadeia de produção de carne, setor tão importante para as exportações e desenvolvimento do país.
Então, aproveitando que ainda estamos em clima de início de ano, espero que 2020 venha com muitos novos projetos de biogás na agropecuária, indústrias, aterros e estações de tratamento de esgoto do Brasil, gerando crescimento e desenvolvimento sustentável.
Agradecimentos
Importante destacar o apoio de diversas empresas, associações, sindicatos e instituições que colaboraram com o levantamento dentre elas: CIBiogás; Projeto GEF Aplicações do Biogás na Agroindústria Brasileira/UNIDO; Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS); Associação Brasileira de Biogás e Biometano (ABiogás); Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), CHP Brasil; ER.BR Soluções em Energia e Biometano; Auma Energia; Leão Energia; Consultor Fabiano Coser; Consultor Cleandro Pazinato Dias; LLEletricidade; Catena Planejamento Territorial; Enermac Soluções em Energia; Freewil Implementos Rodoviários e Agrícolas; Renomaq, FEPAM-RS, Planotec Biodigestores e Biogás Motores.
















