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Especiais Selectus nº 5805

Fluxos de água virtual insustentável no comércio agrícola mundial

Sustentabilidade – Estudos recentes destacaram a dependência da produção global de alimentos em práticas de irrigação insustentáveis, que esgotam os estoques de água doce e os fluxos ambientais e, consequentemente, prejudicam os ecossistemas aquáticos.

Fonte: IOPScience – Tradução livre: Terra Viva

O trabalho de Lorenzo Rosa, Davide Danile Chiarelli, Chengyi Tu, Maria Cristina Rulli e Paolo D’Odorico, publicado em outubro deste ano, concluiu que em muitos países, uma grande parte do consumo de água para irrigação é insustentável como no caso da Índia (54% do consumo nacional de água por ano vai para irrigação), Paquistão (61%), e Estados Unidos (62%).

Fluxos de água virtual insustentável no comércio agrícola mundial

Figura 1 – O mapa mostra volumes de consumo de água de irrigação sustentáveis e insustentáveis e as fontes de água doce (aquíferos, rios, lagos) que estão sendo esgotadas para cultivo (Richter 2014, Richey et al 2015, Jägermeyr et al 2017).

Fluxos de água virtual insustentável no comércio agrícola mundial

Figura 2 – Consumo insustentável de água para irrigação (UWC) incorporado no consumo doméstico e nas exportações de 15 países com os UWC mais elevados. (a) Países que mais contribuem para a UWC para consumo interno e exportações nos anos de 2000 e 2015. (b) Contribuição específica de cada cultura para a UWC por país no ano de 2015.

A intensidade do impacto da agricultura no UWC varia com o tipo de cultura e a localização geográfica para o trigo, milho, arroz, algodão, frutas e legumes, contribuindo coletivamente para 73% da UWC global. Enquanto na Índia e no Paquistão, o trigo é o principal contribuinte para a UWC (32% e 38%, respectivamente), na China a maior parte da UWC é de arroz (33%) e nos Estados Unidos é o milho (29%).

Fluxos de água virtual insustentável no comércio agrícola mundial

Figura 3 – Contribuição específica das culturas para o UWC, para o consumo doméstico e exportações em 2000 e em 2015. As culturas que mais contribuem para a UWC global são trigo (21%), arroz (18%), milho (13%), frutas e legumes (11%), algodão (10%), e gramíneas forrageiras (7%). As culturas que contribuem para o comércio internacional de UWC são algodão (33%), arroz (15%), frutas e legumes (12%), citros (8%), trigo (7%), milho (6%), cana-de-açúcar (6%) e soja (4%). No período entre 2000 e 2015, a UWC incorporada no arroz comercializado, trigo, citros, algodão e soja aumentou, respectivamente, 130%, 66%, 125%, 15%, e 31%.

A UWC aumentou 8% em quinze anos principalmente por causa da expansão da irrigação na Índia, México, China, África do Sul e Espanha. Ao mesmo tempo caiu nos Estados Unidos, Uzbequistão e Austrália. O UWC sentiu a expansão da irrigação no cultivo de milho, trigo, e algodão, mas, foi menos intenso pela redução da irrigação em gramíneas forrageira, frutas e legumes, e sorgo.

Insustentabilidade incorporada ao comércio internacional de alimentos

A conclusão é que 15% da UWC global está inserida no comércio internacional de produtos agrícolas. Entre 2000 e 2015, o comércio mundial de água virtual insustentável aumentou 18%, enquanto a quantidade de alimentos comercializados aumentou 65%. Nesse período a UWC nas exportações agrícolas aumentou quatro vezes para a Índia (13,4%), seguida de uma aumento de 25% no Paquistão, Egito (9%), México (89%) e Espanha (42%). Ao mesmo tempo, houve queda nos Estados Unidos (-11%), China (-38%), Irã (-65%) e Uzbequistão (-61%).

Em 2015 os Estados Unidos, Índia, Paquistão, México e Espanha foram responsáveis por dois terços da UWC incorporada ao comércio mundial de alimentos. Os Estados Unidos são os maiores exportadores, com 22% das transferências virtuais insustentáveis de água, seguidos pela Índia (19%), Paquistão (14%), México (7%) e Espanha (5%). A China é o maior importador de culturas UWC, seguida pelos Estados Unidos, Turquia, México e Japão.

Fluxos de água virtual insustentável no comércio agrícola mundial

Figura 4 – Maiores importadores mundiais de água virtual insustentáveis. A figura mostra os 20 países com a maior dependência de importação de água virtual não sustentáveis.

Índia, Estados Unidos, Paquistão, Espanha, Turquemenistão, Egito, Uzbequistão e Austrália atuam consistentemente como exportadores líquidos de culturas baseadas no UWV, enquanto Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, China, Turquia, Rússia e Indonésia atuam como importadores líquidos de culturas à base de UWC. Entre 2000 e 2015, Irã, Peru, Líbia, Argélia, e Etiópia deixaram de ser exportadores, e tornaram-se importadores líquidos de água virtual insustentável. Outros países como México, Tunísia e Moçambique tornaram-se exportadores líquidos. Também surge na história recente o aumento da presença da China no comércio internacional de alimentos, como o principal importador, enquanto aparece o crescimento da Índia e Paquistão como os maiores exportadores de commodities agrícolas não sustentáveis.

Fluxos de água virtual insustentável no comércio agrícola mundial

Figura 5 – O UWC incorporado ao comércio internacional de alimentos em 2000 e 2015. Os exportadores líquidos estão em verde claro e escuro. Os importadores líquidos em laranja e vermelho. As setas indicam os tamanhos relativos dos quinze maiores fluxos de água virtual não sustentáveis do globo.

Nos Estados Unidos 29% do UWC vai para culturas destinadas à exportação. A Índia e o Paquistão são os segundos maiores exportadores de produção agrícola baseada em UWC, apesar de manter 90% e 82% de UWC para uso doméstico, respectivamente. A China é o maior importador mundial de culturas produzidas com o UWC (19% do UWC incorporado ao comércio internacional de alimentos). Além disso, 97% das colheitas de consumo doméstico da China são procedentes de culturas com base no UWC.  

Em 2015, 42% do comércio de água virtual insustentável dos Estados Unidos foram incorporados às exportações de algodão, principalmente para a China, México, Canadá, Japão e Turquia. Milho e soja representaram 17% e 11% das exportações de água virtual insustentável dos Estados Unidos para a China, México e Japão.

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