Acordo de comércio entre Mercosul e União Europeia pode ser inviabilizado
Mercosul – UE - O acordo entre o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) e a União Europeia (UE), que demorou mais de 20 anos para ser celebrado, pode ser inviabilizado de vez, diante do conflito instalado entre o governo brasileiro e as autoridades europeias, após as queimadas na Amazônia.
Além disso, o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Estevão Chaves de Rezende Martins, afirma que se o presidente Jair Bolsonaro (PSL) não amenizar o seu tom beligerante sobre o tema, as ameaças de sanções econômicas contra o Brasil podem se concretizar.
Contudo, é de interesse direto do setor agroexportador nacional mais profissionalizado que esta crise não se estenda. Por isso, a cientista política Ariane Roder, professora no Instituto Coppead de Administração da UFRJ, avalia que a bancada ruralista, até agora mais discreta, deverá começar a pressionar o Executivo federal.
“A bancada ruralista é base do governo, dá suporte a ele. E essa postura do Bolsonaro tende a fragilizar a base”, comenta Roder. “E o presidente, por sua vez, tem o interesse de manter essa base para aprovar as reformas estruturais, como a Previdência Social, a mudança no sistema de tributação”, acrescenta.
A especialista da UFRJ ressalta que a primeira medida utilizada pelos países para exercer pressão sobre um determinado governo é sempre uma sanção comercial, econômica. Isso, para ela, preocupa, já que o Brasil ainda tenta se recuperar de uma recessão.
Na última sexta-feira (23), a França e a Irlanda ameaçaram bloquear o acordo de comércio entre Mercosul e UE. No mesmo dia, a Finlândia, que ocupa a presidência rotativa da União Europeia, anunciou que cogita pedir ao bloco que interrompa as compras de carnes do País, em retaliação ao desmatamento e queimadas na Amazônia.
“Esse tipo de crise não inviabiliza somente a agenda comercial, mas também a cooperação entre os países em diversas áreas, como a científica e tecnológica”, diz Roder.
Ainda na sexta (23), a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse estar preocupada com a possibilidade de embargo. A ministra, no entanto, avaliou que é preciso “baixar a temperatura” das críticas globais e ponderou: “Temos de separar o que é queimada e o que é incêndio”, afirmou.
Tereza Cristina lembrou que incêndios florestais ocorrem em vários lugares do planeta em épocas de estiagem e citou como exemplos os ocorridos na Califórnia, estado norte-americano exemplo de preocupação com o meio ambiente, segundo ela, além de outras regiões. “A Amazônia é importante, o Brasil sabe disso e cuida da Amazônia. Vamos para ação, ver quem está queimando e punir quem precisa ser punido”, ressaltou.
Riscos para o tratado
Martins, da UNB, comenta que, para inviabilizar o acordo Mercosul e UE, basta que as nações não coloquem o projeto em votação em seus respectivos congressos. “Só precisa de um país fazendo isso para que o acordo não seja ratificado”, analisa Martins.
Apesar de ter sido assinado no final de julho, o tratado precisa ser aprovado em cada um dos parlamentos dos países do Mercosul e da UE. Martins destaca que o desgaste entre Bolsonaro e nações europeias no que diz respeito às questões ambientais datam do período pré-eleição, quando, ainda candidato, Bolsonaro criticara o Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas.
Além disso, o professor cita o enfraquecimento da política e das instituições de proteção ao meio ambiente realizado durante o governo Bolsonaro. “Cabe lembrar o confronto do presidente em relação aos dados oficiais do Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] e as provocações pessoais a autoridades”, afirma.
O professor do curso de relações internacionais da Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP), Vinicius Rodrigues Vieira, admite que há também interesses econômicos do outro lado, especialmente vindos da França. Para ele, os acontecimentos na Amazônia vieram em uma hora propícia para o presidente da França, Emmanuel Macron, estabelecer um discurso mais protecionista e, assim, agradar os produtores agrícolas internos, visando as próximas eleições.
Por outro lado, Vieira também entende que o discurso beligerante de Bolsonaro atrapalha muito. Ele ressalta que as queimadas e o desmatamento sempre existiram, mas falta capacidade de negociação e diálogo do Bolsonaro.
Apesar de toda a turbulência, na última sexta foram concluídas as negociações de um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a Associação Europeia de Livre Comércio (Efta), bloco de países europeus formado por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein, que têm Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos) de US$ 1,1 trilhão.
















