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Globalização E Mercosul Selectus nº 5431

Como a “guerra comercial” aberta por Trump afetará seus próprios produtores

Guerra comercial – O mercado já sabe que o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, é imprevisível, impulsivo e adepto das redes sociais, em especial o Twitter. É difícil prever o que será decidido primeiro, ou o que comunicará depois, e o que estará arrependido com o tempo.

Fonte: El País – Tradução livre: www.terraviva.com.br

Agora que a palavra da moda é disruptivo, podemos dizer que Trump é um exemplo de elemento disruptivo: os líderes mundiais estão desconcertados com seu comportamento. Quando assumiu, comunicou que defenderia a produção nacional, mas, a realidade é que, até o momento, suas decisões afetam fortemente o setor agroindustrial dos EUA. E, mais precisamente, não de forma positiva.

As consequências em aplicar tarifas de importação a uma grande quantidade de produtos de seus principais sócios comerciais (China, México, Canadá, União Europeia) são difíceis de dimensionar no momento. Mas, em relação ao setor agro, alguns dados tornam surpreendentes as atitudes de Trump.

- Canadá, China e México são os principais destinos das exportações do agro dos EUA (60 bilhões de dólares versus 135 bilhões do total das exportações agroindustriais).

- A soja é o produto agrícola mais exportado pelos EUA (exporta 50% do que produz).

- A China é o principal importador mundial de soja. Na campanha 18/19 deve importar 103 milhões de toneladas.

- A soja é o maior produto importado pela China dos EUA, em valores.

- Os EUA exportou, em 2017, 9,2 bilhões de dólares, em milho. Sendo que Canadá, México e Japão, compraram 52% desse total.

- As exportações dos EUA para o México são: 12 milhões de toneladas milho, 3 milhões de trigo, 3 milhões de soja, 2 milhões de farelo de soja, 240.000 toneladas de óleo de soja. O México é o primeiro destino das exportações do milho norte-americano. O México é o terceiro mercado de exportação de todo o setor agroindustrial dos EUA, US$ 18,6 bilhões.

- O Canadá é o segundo mercado de exportação do agro dos EUA, US$ 20,4 bilhões.

Segundo os registros estatísticos dos EUA, estes são os 10 produtos mais exportados dos EUA para a China:

           - Soja: US$ 12,4 bilhões.

           - Produtos de pesca: US$ 1,2 bilhões.

           - Produtos florestais: US$ 3,2 bilhões.

           - Algodão: US$ 976 milhões.

           - Couros e peles: US$ 946 milhões.

           - Sorgo: US$ 835 milhões.

           - Suínos: US$ 663 milhões.

           - Lácteos: US$ 577 milhões.

           - Produtos diversos: US$ 425 milhões.

           - Forrageiras: US$ 340 milhões.

Custa entender como como será revertido o dano que o próprio Trump está gerando a seus produtores agropecuários.

Atualmente, a renda dos produtores caíram ao mínimo em 12 anos. As diversas associações do setor expressam sua discordância com as medidas tomadas.

Um exemplo é a Associação Americana de Soja, que pediu ao governo para revogar as tarifas antes de torná-las efetivas no próximo 6 de julho.

Os fazendeiros afirmam com orgulho que conseguiram desenvolver um grande mercado de soja ao nível mundial com 40 anos de trabalho contínuo. Mudar as regras do jogo desta maneira nos afeta diretamente.

O mercado de grãos continuam de olho nos balanços da oferta e demanda, do clima, prognósticos, etc. Mas, o peso da realidade dos mercados hoje, totalmente globalizados, ultra-hiperconectados, faz com que nos sintamos à deriva das decisões de Trump.

Neste contexto, quanto sairá o preço da soja dos EUA para a China pagando 25% de tarifa? Hoje o preço FOB no Golfo é US$ 355. Com a tarifa de importação de 25% chegará a US$ 443.

A China precisa importar ainda nesta temporada de 2017/18 umas 97 milhões de toneladas de soja. O Brasil, em todo o ciclo, até que colha novamente, pode exportar 74 milhões de toneladas. Da Argentina, nesta campanha não pode exportar soja. A China vai assumir pagar 25% mais caro quando o Brasil não puder mais vender? Quanto aumentará a soja no Brasil se a China comprar tudo o que puder dessa origem? Quanto está disposta a pagar para garantir a pouca soja que a Argentina pode exportar? Pode decidir sacrificar sua capacidade instalada de processamento (129 milhões de toneladas anuais) e preferir importar farelo e óleo?

Nesse caso, de onde irá comprar o farelo e o azeite se a Argentina, que é o maior exportador mundial dos dois produtos, este ano, perdeu 20 milhões de toneladas de sua produção de soja?

E os EUA, o que fará com as 60 milhões de toneladas de soja que espera exportar em 2018/19? A quem vender se a China não comprar? Pode Trump decidir aumentar fortemente a demanda interna de biodiesel? Quanto custará em subsídios a ajuda aos produtores para evitar que quebrem ou que reduzam a área da próxima safra?

Análises similares podem ser feitas com o milho, com suínos e todos os outros itens já mencionados.

Os produtores norte-americanos entendem, claramente, que esta guerra comercial abre novas oportunidades para seus concorrentes. Outros vão ocupar o espaço.

Visto de fora, parece impossível que Trump continue avançando com este plano, bem como que a China responderá com a mesma força. Se realmente isso ocorrer, o mercado agroalimentar terá que se reacomodar, com ganhadores e perdedores. Estaremos preparados para aproveitar cada oportunidade?

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