Argentina reduz previsão do PIB para 0,4% no ano
PIB - A Argentina divulgou ontem a carta de intenções com o Fundo Monetário Internacional (FMI), na qual prevê uma forte desaceleração no crescimento para este ano, frente aos cortes que terá de fazer para conseguir cumprir as metas de redução do déficit público. Na carta, o governo diz estar trabalhando com crescimento de 0,4% e inflação de 27% neste ano.
"Esperamos que o crescimento fique neste ano entre 0,4% e 1,4% internanual", diz o documento. A carta destaca que membros da equipe econômica do governo do presidente Mauricio Macri preferem ser "conservadores" na hora de fazer projeções fiscais. No início do ano, a expectativa do governo era de que a Argentina crescesse 3,5% neste ano, e a inflação ficasse dentro da meta de 15%. Para o próximo ano, o Ministério da Fazenda prevê expansão de 2% do PIB. "As projeções foram reduzidas de forma brutal, basicamente porque haverá um corte drástico em infraestrutura", afirma Sebastián Martínez, analista de macroeconomia da consultoria Abeceb, em Buenos Aires. "Estima-se daqui até 2020 um corte de 1,7% do PIB em gastos com infraestrutura. Hoje a Argentina gasta o equivalente a 2% do PIB, e a intenção é chegar a 0,3%." Na segunda-feira, Macri anunciou corte de 25% dos cargos de 86 órgãos públicos, como uma das primeiras medidas para cumprir requisitos impostos pelo FMI. "Só o fato de o Estado tem de ser reduzido é um aviso para os outros setores e investimentos de que será um período frio para toda a economia", afirma Lucía Cirmi Obon, economista do Centro Interdisciplinar para o Estudo de Políticas Públicas (Ciepp). O impacto no crescimento, afirma Martínez, virá tanto pelos cortes de gastos quanto pela política monetária mais contracionista, com taxa básica de juros em 40%. Ontem ainda, o Instituto Nacional de Censos e Estatística (Indec) divulgou que a inflação em maio subiu 2,1% em relação a abril, atingindo 26,3% no acumulado em 12 meses. Apesar de ter ficado abaixo dos 2,5% esperados por consultorias privadas, a inflação deve acelerar nos próximos meses. A previsão é que a inflação deste mês seja de 3%. Além dos reajustes de 10% de tarifas de transporte, diz Martínez, a depreciação do peso argentino frente ao dólar também deve pressionar a inflação ao consumidor. "O impacto da desvalorização cambial sobre preços de alimentos, por exemplo, não é automático. Em geral, demora três meses para se ter impacto completo da depreciação cambial sobre a inflação", diz, ao lembrar que o peso deve acumular depreciação de 60% até o fim deste ano. Alberto Ramos, economista do banco de investimentos Goldman Sachs, afirma que a depreciação do peso argentino pressionará ainda mais a inflação, que deve chegar a 30% até o fim do ano. Em 2017, a inflação encerrou em 24,8%. Na carta de intenções com o FMI, a Argentina fala em metas de inflação de 17% em 2019, 13% em 2020 e de 9% em 2021. Além disso, reafirma o compromisso de reduzir o déficit primário para 1,3% em 2019. O objetivo é chegar a um equilíbrio em 2020 e a um superávit de 0,5% em 2021. A carta foi assinada pelo ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, e pelo então presidente do Banco Central, Federico Sturzenegger. Na noite de ontem, a Casa Rosada anunciou que Luis Caputo deixaria a pasta de Finanças para substituir Sturzenegger no BC.
Apesar de ajustes já neste ano, Nicholas Watson, da Teneo Intelligence, afirma que o grande desafio será no ano que vem, quando o déficit primário terá de ser reduzido de 2,7% para 1,3%. "Apesar da mensagem anterior do governo de que 'o pior já passou', os argentinos enfrentarão uma inflação ainda alta, aumento de tarifas para transporte e serviços públicos, cortes de gastos, e crescimento mais lento, em um ano de eleições presidenciais, legislativas e para governadores das Províncias", afirma. Para que Macri vença a eleição, a Argentina precisa voltar a crescer no ano que vem, diz Martínez. "As únicas boas notícias que parece ter agora são a retomada do setor agrícola, que sem a seca pode puxar a economia novamente, e a perspectiva de recuperação do Brasil", diz. Ele lembrou que, historicamente, cada ponto percentual de crescimento do PIB do Brasil significa 0,2 ponto percentual de crescimento para a Argentina.
















