A história do jovem agricultor que desceu do trator num campo de soja e subiu ao topo da indústria láctea brasileira.
Com 15 anos, Wilson Zanatta
largou a escola e decidiu plantar soja. Do pai ganhou um trator e um
bom pedaço de terra na propriedade da família, em Tapejara, RS. Cinco
anos depois, sem ter conseguido concretizar o sonho de ficar rico, o
jovem sojicultor foi aconselhado pelos médicos a trabalhar na sombra.
Sua pele clara de descendente de imigrante do norte da Itália não
estava aguentando a superexposição ao sol do sul do Brasil. A saída foi
voltar às salas de aula.
Tardiamente
formado em veterinária em Bagé, Zanatta começou estagiando na
Cooperativa Santa Clara, o mais antigo laticínio gaúcho. Pouco depois,
com 30 anos, deu início a um laticínio. Para terminar de montar o
negócio, precisou pedir ajuda à mulher, Miria. Ela vendeu a loja que
tinha na cidade e engajou-se na pequena indústria rural, iniciada com
quatro empregados e 22 fornecedores de leite. Era 1993, o último ano da
inflação galopante no Brasil, e ninguém imaginava que menos de 20 anos
depois aquela fabriqueta de queijo teria crescido a ponto de afrontar
os gigantes Nestlé, Perdigão, Itambé e Parmalat.
BOM GOSTO
Quarto maior grupo de laticínios do Brasil;
R$ 816 milhões em ativos;
R$ 1,7 bilhão em faturamento;
mais de 28 mil produtores diretos, distribuídos em 624 municípios em 11 estados (RS, SC, PR, MG, MS, GO, RJ, ES, SP, PE, AL);
média de captação de 3.000 mil litros/dia;
3.004 empregos diretos;
mais de 40 mil empregos indiretos;
86% de crescimento médio entre 2000 e 2007 (apenas Laticínios Bom Gosto S/A).
"Os
laticínios têm futuro promissor. Há muito espaço para melhorar a
genética do rebanho, o manejo dos plantéis, a alimentação das vacas, a
modernização da ordenha, além de cuidar da armazenagem, do transporte e
do beneficiamento do leite"
Wilson Zanatta
Zanatta não esconde que o Leite Bom Gosto cresceu montado em dívidas. Em
2000, o faturamento anual chegou aos 5 milhões de reais, mas a fábrica
estava pendurada nos bancos. Nessa época, preocupado em aumentar a
produção e melhorar a qualidade, ele ia comprar vacas holandesas no
Uruguai para revender - a preço de custo, assegura - aos parceiros do
laticínio emergente do planalto gaúcho. Uma vez, fretou um ônibus e
levou os amigos leiteiros na busca de matrizes ao interior uruguaio.
Miria, a vice-presidente, foi junto e cuidou da alimentação da turma -
muito sanduíche de queijo e mortadela e refresco -, tudo por conta da
firma. A importação de mais de 4 mil vacas ao longo dos anos, segundo
Zanatta, foi uma das chaves da expansão da produção de leite C,
iogurtes, queijos e cremes em Tapejara.
Quando
as vendas chegaram a 200 milhões de reais num único ano (2003), Zanatta
procurou ajuda: mesmo insistindo em olhar só para a frente, o
endividamento galopava firme ao lado do faturamento. Do BRDE, que o
ajudou na primeira hora, passou a conversar direto com o BNDES, que
assumiu uma participação de 23% no capital do Bom Gosto. De passivo
zerado a partir de 2006, Zanatta saiu comprando ativos pelo Brasil.
Entre
as maiores aquisições, destacaram-se as unidades da Corlac de Erechim,
RS, da Parmalat de Garanhuns, PE, e da Nestlé de Barra Mansa, RJ. O
maior negócio, aconselhado pelo BNDES, foi a fusão, em novembro de
2008, com a Líder, de Lobato, PR, de que resultou o quarto maior grupo
lácteo do Brasil. Fundada em 1980 pelos irmãos Agenor e Aparecido
Stuani, a Líder também começou com queijos e consolidou-se em 2002,
após uma reestruturação organizacional. Seu maior negócio antes da
fusão foi a compra da mineira Boa Nata, com mais de 45 anos de mercado.
Antes
perna de elefante que cabeça de galinha: se há quatro anos Wilson e
Miria Zanatta tinham 100% de um negócio familiar ameaçado por dívidas,
agora têm 33% de um empreendimento cujo faturamento estimado para 2009
é de 1,7 bilhão de reais. Os irmãos Stuani ficaram com 33%, e o BNDES
com o resto.
"SALUDOS, HERMANOS!"
O
projeto mais ousado de Wilson Zanatta é produzir leite em pó no
Uruguai. A previsão é investir 30 milhões de dólares numa indústria com
capacidade inicial de processamento de 400 mil litros por dia. O
terreno está comprado em San José, a 70 quilômetros de Montevidéu, mas a licença ambiental ainda não saiu.
Sócios
e dirigentes da veterana Conaprole - Cooperativa Nacional de Produtores
de Leche, quase um ente estatal, andaram bufando contra "la invasión
brasileña" - a pecuária de corte do Uruguai já anda comendo na mão de
frigoríficos brasileiros.
Zanatta
diz que ligou para o superintendente da Conaprole para desfazer o clima
de confronto: "Fica tranquilo, Nuñez, não quero competir com vocês aí
dentro do Uruguai. Só quero exportar". A desculpa é muito boa. Como o
Brasil não consegue vencer as barreiras para entrar no mercado
internacional de leite em pó, a saída seria montar uma plataforma de
exportação no Uruguai, cujas dimensões não assustam ninguém, tanto que
o país exporta leite em pó para mais de 40 países.
Ocupando 2,6 mil pessoas em 20 unidades industriais, em sete estados, a Bom Gosto-Líder
recebe a produção de 26,5 mil produtores de leite, o que corresponde a
3 milhões de litros por dia. Além das marcas Bom Gosto e Líder, contam
com outras tradicionais no mercado de laticínios do país, como DaMatta, Sarita, Corlac, Boa Nata, São Gabriel - todas engolidas no processo de compra de concorrentes menores.
Ainda
que tenha sido difícil para Miria Zanatta trocar o cartão de visitas e
a tabuleta de sua porta - de vice-presidente para gerente de
suprimentos -, Wilson Zanatta acha que a fusão foi um grande passo para
disputar a liderança do mercado sem carregar nas costas um passivo
perigoso em um segmento que se caracteriza pela estreiteza das margens
operacionais. Da captação diária de 2 mil litros de leite em 1993, está
fechando o ano de 2009 com a capacidade de processamento em 1,1 bilhão
de litros - pouco mais de 3% da produção nacional.
A
expansão geográfica do empreendimento, que o obriga a viajar bastante
para visitar fábricas e fornecedores, não parece assustá-lo nem o
afasta de Tapejara, onde continua a passar os fins de semana com a
mulher e o casal de filhos. Ele se orgulha de ainda usar botas brancas
"de boracha", como nos bons tempos em que madrugava para ordenhar a
vacada familiar.
O
boom do empreendimento de Zanatta gerou dois tipos de reação. Por um
lado, ele começou a ser chamado de Rei do Leite. Por outro, trouxe à
lembrança episódios como a crise da Parmalat e o tombo de Ricardo
Mansur, do Leite Vigor. Nada a ver, diz Zanatta, que rejeita as comparações negativas.
É
certo que algumas operações do BNDES lembram as atividades de um
pronto--socorro ou de uma UTI, mas pelos indicadores o Bom Gosto não
tem cara de mico. De qualquer forma, os altos e baixos de grandes e
pequenos laticínios brasileiros provam que o ramo é complicado, pois
remunera mal na captação de matéria-prima e enfrenta uma competição
acirrada na ponta do varejo, do que resulta um baixo retorno para quase
todos os envolvidos na cadeia de produção. Quem mais ganha nesse
circuito são os criadores de matrizes leiteiras altamente produtivas,
seguidos pelos consumidores beneficiados pela ampla oferta de vários
tipos de leite e derivados. Mas não se pode esquecer de que o leite é
um dos insumos básicos do êxito de multinacionais leiteiras como a
Danone e a Nestlé.
Haverá
espaço para o surgimento de uma grande companhia nacional nesse
segmento? No fundo, esse parece ser o sonho de Zanatta. Experiência não
lhe falta para chegar lá. A estreiteza das margens operacionais e a
queda da produção leiteira nos meses frios são compensadas pela
estabilidade da demanda e por avanços tecnológicos no processamento da
matéria-prima. Por exemplo, o crescimento da produção do leite longa
vida, cujas perdas são mínimas, reduziu as quebras com o leite
pasteurizado, que perece em cinco dias. Além disso, cresce sem parar o
mercado de derivados do leite - cremes, doces, iogurtes, queijos -,
cujas margens são bastante compensadoras.
Tem
mais. Segundo Zanatta, uma das boas coisas da operação leiteira são as
vantagens fiscais oferecidas por muitos estados. Quanto mais rico o
estado, maiores os favores. Nadando nos royalties do petróleo, o Rio de
Janeiro isenta totalmente de impostos as usinas leiteiras e ainda dá
prêmios fiscais aos que melhor trabalham o conceito de que o leite não
é apenas um alimentício, mas um ingrediente fundamental para a boa
saúde da população.
O POTENCIAL DO LEITE
Na
opinião de Zanatta, os laticínios têm futuro promissor porque a
produção de leite configura um dos setores mais atrasados do
agronegócio brasileiro. Há muito espaço para melhorar a genética,
aprimorar o manejo, enriquecer a alimentação das vacas, modernizar a
ordenha e cuidar da armazenagem, transporte e beneficiamento do leite.
O potencial de expansão do mercado é grande. Antes do Plano Real
(1994), o Brasil tinha um consumo per capita em torno de 100 litros de leite por ano; mesmo crescente, ainda não chegou ao valor recomendado pela ONU - 180 litros
por habitante por ano. À medida que aumenta o poder aquisitivo da
população, o consumo de carboidratos tende a ser substituído por
proteínas - carnes, frutas e derivados do leite.
Fonte: (Globo Rural)