Terça, 12 Junho 2018 18:55

Fazenda já admite perda de R$ 15 bi com greve

Greve dos caminhoneiros - A equipe econômica considera provável que os impactos diretos da paralisação dos caminhoneiros sobre a atividade fiquem na casa dos R$ 15 bilhões (ou 0,2% do PIB, aproximadamente), como apurou o Valor, considerando apenas o impacto na parada da produção, sem estimar efeitos mais subjetivos decorrentes da deterioração das expectativas e índices de confiança.

Integrantes do governo, como o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, e o presidente do IBGE, Roberto Olinto, admitiram ontem que o crescimento deste ano deve menor que o previsto, mas evitaram fazer estimativas. O cálculo do prejuízo de cerca de R$ 15 bilhões foi exposto ontem no Prisma Fiscal, encontro trimestral entre membros da Fazenda e economistas do setor privado, na sede do ministério em São Paulo. O teor da reunião foi confirmado por três participantes que pediram anonimato. Segundo os relatos, o secretário de Política Econômica, Fabio Kanczuk, afirmou que a Fazenda usou diversas metodologias para estimar os impactos da greve. A que indicava um prejuízo de cerca de R$ 15 bilhões parecia a mais correta. É um número menor do que as estimativas que vêm sendo divulgadas por instituições financeiras e consultorias. O cálculo, porém, leva em conta principalmente o que foi perdido de produção e não contempla impactos da crise sobre a confiança de empresários e planos de investimento. Boa parte do setor privado está pessimista não só com os impactos da paralisação mas também com o ritmo de retomada da atividade e as turbulências recentes do mercado financeiro. De acordo com um dos analistas, ainda não está totalmente claro quanto às revisões recentes para baixo do PIB foram influenciadas pela paralisação e quanto pela própria frustração com a retomada. Kanczuk, segundo um dos participantes do evento, afirmou que não vê tamanha piora dos fundamentos econômicos que justifiquem as turbulências da semana passada e que acredita em alguma melhora das condições financeiras no futuro. À tarde, Guardia sinalizou que é possível que o PIB de 2018 seja revisado para baixo na próxima divulgação da programação orçamentária e financeira. Questionado sobre o assunto após evento em São Paulo, o ministro não descartou a hipótese. "Pode, pode ser", disse. "A gente revê a previsão a cada dois meses quando a divulgamos a programação orçamentária e financeira. Vamos continuar fazendo isso. Quando a gente faz a revisão, reprojeta receita e despesa para o ano, e nós sempre divulgamos uma nova grade de parâmetros. Isso é o que a gente sempre fez. Esse processo de revisão é contínuo. A cada dois meses temos isso atualizado e evidentemente levamos em consideração as últimas informações disponíveis", disse. Guardia também participou da reunião do Prisma. Atualmente, o governo prevê crescimento de 2,5% em 2018. Já o relatório Focus, do Banco Central, apontava ontem que a mediana das estimativas dos economistas do mercado financeiro para o produto caiu de 2,18% para 1,94%. "Vamos esperar uma próxima revisão e vamos divulgar um número. O que não quero é a cada semana sair com novas projeções de crescimento. Temos um processo organizado que é reprojetar receitas e despesas e isso exige um cenário macroeconômico. Então me parece muito adequado fazer isso a cada dois meses e é o que vamos continuar fazendo", disse Guardia.

Olinto, do IBGE, afirmou que a greve vai afetar negativamente o PIB do segundo trimestre de forma ainda "não quantificável". Durante coletiva na sede do órgão, no Rio, ele criticou as projeções de analistas, as quais considera "pouco científicas". "Você tem economistas falando que é só tirar o equivalente ao PIB de um mês do trimestre e esse é o prejuízo. É bastante perigoso esse tipo de lógica. Uma greve desse tipo não dá para fazer projeção de que vai ser assim ou assado, porque tem 'n' alternativas", afirmou. O presidente do IBGE disse que a paralisação gera impactos via, por exemplo, a deterioração de mercadorias perecíveis, como alimentos, hortaliças e leite. "Já o que foi entregue atrasado, você recupera a receita. Neste caso, podemos ter simplesmente um ponto fora da curva e depois uma estabilização", disse. Não existe nenhuma evidência até o momento de que a greve dos caminhoneiros "matou" um mês inteiro de atividade econômica, disse. "É inegável que houve uma crise de oferta. O país vai vivendo um semestre eleitoral, o que cria instabilidades. Você tem nesse momento eleitoral uma série de previsões que não são das mais científicas, que têm outros interesses", disse, sem especificar as fontes dessas projeções e quais seriam seus interesses. Para Olinto, a preocupação é medir corretamente o que aconteceu na greve, o que deixará o IBGE "mais atento na observação e crítica dos dados" de suas pesquisas. "Você tem problema de distribuição de gás, que não foi recuperado. Mas perecíveis e legumes foram regularizados razoavelmente. Se vai ter um impacto de mais longo prazo ou de curto prazo é o que estamos preocupados e acompanhando."

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  • Fonte da Notícia: Valor Econômico
  • Data: Terça, 12 Junho 2018
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