Produtores de leite brasileiros em pé de guerra com o
Uruguai
Marinella Castro - Estado de
Minas
Os produtores de leite brasileiros estão em pé de guerra com o Uruguai. Aproveitando um amplo mercado de quase 200 milhões de consumidores, o país vizinho, de solos férteis, está despejando sua boa safra de lácteos, principalmente o leite em pó, no mercado nacional. Contando ao seu favor com a revogação das licenças de importação não-automáticas e a ausência de cotas, de janeiro a julho deste ano, o Uruguai exportou para o Brasil 18,8 mil toneladas de produtos lácteos. O percentual representa 30% do volume total de lácteos importado pelo país no período.
O resultado do crescimento da oferta é que, em plena entressafra, o preço despenca para o produtor, ao mesmo tempo que nos supermercados é uma atração. Em época de "vacas magras", onde tradicionalmente o alimento pesa no bolso das famílias, o litro de leite longa vida apresentou queda de até 15% entre junho e julho. O levantamento foi realizado pelo site Mercado Mineiro na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde o litro do leite pode ser encontrado a partir de R$ 1,45.
Lideranças dos produtores da região Sul, Sudeste e Centro-Oeste estão reivindicando que o governo federal estabeleça cotas para o Uruguai, como ocorreu com a Argentina, também integrante do Mercosul. O leite uruguaio chega ao país custando aproximadamente R$ 0,63 o litro contra preço médio nacional de R$ 0,72. O vizinho tem a seu favor isenção de impostos, solos, clima e subsídio.
Nos próximos meses, com a entrada da safra, os preços que já despencaram em média 9% na produção, entre junho e julho, devem continuar em queda livre. "A concorrência com o Uruguai é predatória. Da mesma forma que há cotas para o frango brasileiro entrar no Uruguai, o governo deve limitar a entrada de leite uruguaio no Brasil, caso contrário as fazendas brasileiras poderão virar sucatas", defende Rodrigo Alvim presidente da Comissão de Pecuário de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (C NA), que ontem participou de encontro do setor na Federação da Agricultura de Minas Gerais (Faemg). Ele aponta que ao negociar a abertura do mercado uruguaio para o frango brasileiro, o país vizinho protegeu sua indústria estabelecendo limites para a importação, já o Brasil abriu as portas sem restrições.
No ano passado questão semelhante foi enfrentada com a Argentina. Além de cotas de 3 mil toneladas/mês a Argentina não pode praticar preços menores que a Nova Zelândia, maior exportador mundial. Com a queda do comércio com a Argentina, cresceu o Uruguai. Cerca de 60% do leite em pó e soro uruguaio desembarga no porto de Vitória e é consumido pela indústria de alimentos. Já o produto UHT (longa vida) e também os queijos uruguaios tem como principal alvo o Sul da país, devido a logística facilitada. O longa vida da Cooperativa Conaprole uruguaia é encontrado com facilidade pelo consumidor do Sul do país. "Desde o ano passado sofremos fortemente com a concorrência uruguaia. Os preços já caíram 9% desde junho e a tendência é de mais 2% em agosto", diz Nelton de Souza, vice-presidente de finanças da Federação da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina (Faesc).
O saldo dos lácteos na balança
comercial acumula déficit de US$ 85,8 milhões de janeiro a julho de 2010, o
dobro do observado no ano passado, quando no período o déficit era de US$ 41,2
milhões. De
Outra questão que está deixando a pecuária nacional de orelhas em pé, é o avanço das importações de soro, que também levantam suspeitas. Como o produto é mais barato e pode substituir o leite na fabricação de diversos alimentos, os pecuaristas já solicitaram ao governo brasileiro abertura de fiscalização para rastrear o destino do soro. No mês passado entraram no país, 4,5 mil toneladas do produto, volume 86% superior ao mesmo período do ano passado. "Para que tanto soro? Se por acaso este produto estiver substituindo o leite, o valor de proteína dos alimentos é reduzido, daí temos um crime", pondera Rodrigo Alvim, presidente da Comissão de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
No contra-ataque aos altos e baixos do mercado, algumas medidas, como a união das empresas, Itambé, Minas Leite de Minas Gerais, Centro Leite de Goiás e Confepar do Paraná, podem dar um impulso a produção. A ideia é que as empresas funcionem como cooperativas captando 7 milhões de litros de leite/dia. Outra estratégia é uma parceria entre Brasil e Argentina, com financiamento conjunto do BNDES e do Fundo de La Nacion. "Queremos criar uma plataforma para trabalhar um terceiro mercado mundial", diz Alvim. Historicamente, a produção de leite brasileira enfrenta os preços cíclicos do mercado. Minas Gerais é o maior produtor concentrando 28% dos 27,7 bilhões de litros produzidos no país.
Fonte: Portal Uai/Economia